AVISO IMPORTANTE

Amigos e amigas, a vocês que acompanham meu blog, informo que estou usando um novo endereço para as minhas postagens.

Acessem: http://diretonamemoria.blogspot.com/

Aguardo vocês por lá!

Um forte abraço!

 

Contra o senso comum

 

Passividade de sândalo

 

A filosofia um tanto hipócrita dos super-heróis da ficção de dar a outra face pode ser politicamente correta, socialmente aceitável, mas de aplicabilidade duvidosa na prática cotidiana.

Os super-heróis, pelo menos os tradicionais, não matam os vilões, mesmo sabendo que a recíproca não seria verdadeira. Por extensão, mesmo vivendo em pleno e arfante capitalismo selvagem, terreno adubado do individualismo, ainda há espaço para a política do perdão incondicional e irrestrito, mesmo quando as feridas que nos foram causadas não são curadas, mesmo quando são magoadas, fustigadas, reabertas. Aí, segue-se a esteira conformista de continuar dando a outra face ao tapa.

A moda do politicamente correto refuta a postura revanchista ou simplesmente orgulhosa de quem rejeita conceder o perdão. Mas por que será? Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Acho que é bem por aí!

Nesse ponto, uma ilustração: aqueles honrosos defensores ardorosos dos “direitos humanos”, que chegam a pular na frente de um bandido para que não seja machucado, que lutam por seus “direitos” com unhas e dentes, que não permitem sequer que haja com eles contato físico, mesmo em se tratando de assassinos e estupradores. Será que esses “defensores” agiriam assim se a vítima desses “indefesos prisioneiros” fosse um filho seu, um amigo? Sempre me questionei isso.

Voltando à discussão, até que ponto é possível, mesmo diante da maior ofensa, da maior decepção, abaixar a cabeça e perdoar? E mais, até que ponto isso nos faz realmente bem? Se você folhear os livretinhos de auto-ajuda, localizará por certo uma enxurrada de frases do tipo “perdoe quem te ofendeu”. Do jeito que expõem, essa parece dever ser uma prática mais que contínua, única, lógica. Será que esses “semideuses” da pós-modernidade sempre procedem dessa maneira? Não creio.

Não se trata de puro revanchismo. Há casos e casos, é fato. Só não admito o perdoar sempre, aceitar sempre a falsidade, a calúnia, a difamação, a má-fé. E o amor-próprio, onde fica? Se sempre aceitamos tudo o que fazem contra nós e abrimos as portas novamente, estamos sinalizando ao agente da “ferida” que estamos prontos também para sermos atingidos de forma reincidente.

Rejeitar conceder o perdão, diante de uma situação extrema, é dizer pra si mesmo que está vivo, que tem brio, e que merece respeito. E de fato, há feridas difíceis de secar. Há golpes inesquecíveis, há decepções intragáveis. Para esses casos, o melhor, sempre, seria uma boa conversa, uma “lavagem de roupa suja”, aberta, sem firulas ou sentimentalismos. Como isso costuma ser difícil de acontecer, ignorar, anular o “agressor”, relegá-lo à sua vil insignificância pode ser boa uma indicação de que você sentiu o golpe e não vai “abrir a guarda” tão facilmente.

E quando o tiro é “fogo amigo”, fica mais difícil ainda assimilar, aceitar o que aconteceu e desculpar quem fez com que acontecesse. A decepção, quando levada a termo por alguém que se julga amigo, é especialmente dolorosa, e costuma ser mais difícil de ter cura. Nesse caso, resta avaliar até que ponto essa “criatura” é realmente seu amigo, e se vale a pena tentar resolver a contenda. Uma injustiça sofrida é algo que só o injustiçado pode medir, e quando isso é produzido por alguém a quem se dedicava confiança e amizade os resultados são imprevisíveis.

Enfim, nem sempre se pode ser sândalo, perfumando o machado que o feriu, de forma passiva e poética. Nada mais valioso que a paz de espírito, mas se enganam aqueles que acham e defendem que ela só pode ser atingida com o perdão. Às vezes não perdoar pode até ser mais doloroso, porém revela-se um remédio importante para se fortificar como pessoa consciente do seu próprio valor. Essa atitude, por mais que seja politicamente incorreta e contrária aos ditames da hipocrisia social, pode conduzir o “fogo amigo” a ser “um tiro no próprio pé” (dele, é claro!).

 

De volta à ficção!

 

Venta muito frio no Morro dos Suicidas

 

A manhã já tinha caído quando cheguei aqui. Incomum acordar tão cedo, ainda mais num domingo. Imagine acompanhar os primeiros raios furtivos de sol de uma manhã dominical... pra mim, isso é até mesmo um tanto surreal!

Mas não vim aqui por acaso. Não foi só a bela vista que tenho de quase toda a cidade que me trouxe aqui tão cedo. Na verdade, o que me trouxe não vem ao caso agora, até porque nem mesmo eu sei ao certo o porquê de estar aqui tão cedo.

Este lugar é estranho. Tem um nome sombrio, macabro: Morro dos Suicidas. E o mais contraditório é que ninguém nunca conseguiu se suicidar aqui. Não que não seja alto o suficiente, pelo contrário, é muito. Mas os três que tentaram daqui o suicídio conseguiram apenas escoriações e no caso mais grave entre eles, um braço quebrado. Isso seria cômico, não fosse um pouco trágico.

O fato é que as pessoas procuram esse morro quando estão fora de si, ou quando querem fazer algo às escondidas. Nunca à noite. Dizem temer as más energias que circundam este lugar. Eu mesmo não venho aqui á noite, prefiro evitar. Medo? Pode ser. Acredito em tudo até que provem ao contrário. Até em mim mesmo...

Você já teve uma grande decepção? Ou uma frustração incontrolável? Acho que todos nós já passamos por isso, ou vamos passar. Quando isso acontece, logo vem a idéia de subir esse morro, nem que seja pra ver tudo do alto e pensar por alguns minutos sob a ótica fantasiosa de um suicida. Mas não foi bem isso que vim fazer aqui. Acho que não.

Ninguém deu por minha falta. Acham que ainda estou dormindo ou por aí, fazendo alguma coisa sem sentido. Essa última parte é verdade: estou mesmo. Vim para “o morro”, como chamam mais comumente, só para pensar?

Não é fácil lidar com o sofrimento. Uns preferem os entorpecentes, outros, a religião. Não curto nada disso. Me entorpeço com meus pensamentos vagos e prefiro crer naquilo em que me permito acreditar, portanto fora dos padrões religiosos mais conservadores. Assim, não me restam muitas opções. Eis que aqui estou, olhando a cidade, tentando ver algo que ainda não consegui ver.

Alguém já deve ter dito que é preciso enxergar tudo bem do alto para conseguir ver bem dentro de si mesmo. Se não disse, pelo menos fui capaz de criar alguma coisa nova... As guerras, por exemplo. Por que alguém se entusiasma com uma guerra? Lutar por grandes interesses que não lhe interessam? Talvez seja uma válvula de escape, mas nunca ouvi falar de um soldado que soubesse o real motivo pelo qual estava perdendo os melhores anos da sua vida numa guerra idiota e sem sentido.

Quem sabe as pessoas preferem ir a uma guerra para encontrar um sentido para a sua vida ou para encontrar a si mesmas. E sinceramente, não sei qual das duas descobertas pode ser a mais perigosa. E nada garante que vão encontrar alguma das duas respostas.

Eu não iria a uma guerra. As respostas que procuro podem ser encontradas aqui mesmo. Não preciso morrer queimado por balas rasantes pra saber que a vida é complexa ou que não sei lidar com os pequenos caprichos que a vida me apresenta diariamente. Acho que sou um covarde.

Tão covarde que estou no morro dos suicidas e até agora não fui capaz de pensar em me suicidar, mudar de uma vez a escrita contraditória e irônica deste lugar. Aliás, nunca cheguei a uma exata conclusão a respeito do suicida: seria extremamente corajoso de tirar a própria vida ou definitivamente covarde de não querer viver pra enfrentar seus problemas de perto? Não sei. Acho que morrerei com essa dúvida.

Daqui de cima, esse vento frio e essa névoa parecem empurrar a gente morro abaixo. E a vista é tão linda que dá vontade de pular e ser pássaro uma vez na vida, mergulhando no doce halo dessa vista deslumbrante, nessa brisa fria e calma que cobre esses campos abaixo.

Vou chegar mais perto do despenhadeiro, quem sabe eu tomo uma decisão afinal. Quanto mais perto, mais bonito fica, mais fica fácil pular. E cada vez mais bonito, mais mágico, quase vertiginosa sensação de alívio que paira sobre mim.

E isso não pode acabar. Pelo menos parece que não.

 

Em defesa dos animais!

 

A maior das covardias

 

Não existe covardia maior que maltratar um animal. Os animais são comumente indefesos, e quando atacam alguém ou o fazem por instinto de defesa (de si ou do seu dono) ou por condicionamento. Neste último caso, é marcante em nosso país a polêmica sobre os pitbulls. Como imaginar que uma determinada raça de cães tenha “predisposição para a maldade”, conforme já ouvi de algumas pessoas insensatas. É muito claro que os cães dessa raça agem agressivamente porque sofrem todo tipo de abuso para que se tornem agressivos, inclusive é praxe de alguns chutarem a barriga da cadela prenhe para que os filhotes tenham certa predisposição para a agressividade. E num caso como esse, quem é mesmo o animal?

Os cães costumam agir em defesa de quem lhes dá carinho e cuidado, como o que aconteceu em Salvador, quando o cão “Branco” latiu para um policial que dava chutes em seu dono, um morador de rua, e foi alvejado no pescoço. Sorte que os comerciantes da área se reuniram para pagar a cirurgia do cão e ele se salvou. Outro flagrante de agressão foi o que aconteceu com um cão no Rio Grande do Sul, nesta semana: foi arrastado por 100 metros amarrado a um carro e teve escoriações múltiplas, e por sorte sobreviveu. O autor do crime, um idoso, disse que não tinha a intenção de matá-lo. Mais uma vez, eu pergunto: quem é mesmo o animal?

Em alguns países desenvolvidos, existem polícias especiais para coibir maus tratos a animais, e aqueles cometem esses crimes sofrem punições severas, o que normalmente os desencoraja a repetir tais atrocidades. No Brasil, a lei também prevê como conduta criminosa a prática de maus tratos a animais. A denúncia de maus-tratos é legitimada pelo Art. 32, da Lei Federal n.º 9.605 de 1998 (Lei de Crimes Ambientais):

 

Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

        Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.

        § 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

        § 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.

 

A denúncia dos maus tratos pode ser feita na delegacia ou no ministério público, usando como referência o artigo acima.

Não existe relação mais sincera que aquela entre um animal de estimação e o seu dono. O animal não cobra nada do dono, não tem interesses escusos, egoísmo ou falsidade, apenas exige dele atenção e carinho, que é o mínimo que poderíamos dar em retribuição à felicidade cotidiana que nos proporcionam. Já existem vários estudos que comprovam que pessoas que têm animais de estimação vivem mais, têm menos stress.

É preciso zelar pela proteção dos animais, pois diante de nós eles são, na maioria absoluta das vezes, indefesos e dependentes. Portanto, é um dever de cidadania e amor cuidar deles e defendê-los de maus tratos.

Ao cuidar dos animais estamos dando uma prova de civilidade e compaixão, ratificando as palavras de Humboldt: “O grau de civilização de um povo avalia-se pelo modo com que trata os animais”.

Se você se interessa pela proteção dos animais, procure mais informações nos sites abaixo:

http://www.vivabicho.org.br/

http://www.abolicionismoanimal.org.br/

http://www.protetoresvoluntarios.com.br/portal/

http://www.sentiens.net/

http://www.soama.org.br/

 

Depois das eleições...

 

Pelo menos no interior da Bahia, acabaram as eleições. Se o saldo será negativo ou positivo, só o tempo vai dizer, pelo menos na maioria dos lugares. Parabéns àqueles que foram às urnas munidos de sua consciência e discernimento, votar nos candidatos que representavam a possibilidade de um trabalho constante em prol da coletividade. E quanto àqueles que foram às urnas pensando em se locupletar, em atender as suas próprias necessidades econômicas em detrimento da coletividade, meus pêsames, pois por mais que seus candidatos tenham sido eleitos, a satisfação individual só mascara um grave problema generalizado, causado justamente por políticos incompetentes e mal intencionados, que compram votos ou os trocam por favores ou favorecimentos.

Há que se registrar e dar os merecidos parabéns à Justiça Eleitoral, as Polícias Civil e Militar e ao Ministério Público. Seus representantes se desdobraram para manter a lei e fazer cumprir os procedimentos eleitorais, além de coibir a corrupção e a truculência. Em Amargosa, pelo que presenciei, a ação desses órgãos deu uma demonstração de que vivemos um novo tempo, em que a independência e a autonomia dos profissionais parecem fortificar sua atuação nas situações diversas do cotidiano.

Parabéns aos eleitores e candidatos que não compraram nem se venderam, aos profissionais que trabalharam arduamente para que o processo eleitoral transcorresse com lisura e dignidade. Que se reconheça a legitimidade do resultado das eleições, que representa a soberania popular e seu poder de decisão do seu próprio destino.

A democracia consubstanciada no processo eleitoral é uma conquista essencial para a nação brasileira, alcançada a ferro e sangue, pela força e pelo sofrimento dos brasileiros torturados e mortos nos porões da ditadura militar. Saibamos reconhecer e valorizar essa conquista árdua, votando com consciência e critério, dando às gerações futuras um exemplo tão digno quanto aquele que os mártires da ditadura conseguiram nos mostrar. Por isso mesmo, devemos sempre olhar para o passado, analisar a trajetória de vida e política dos candidatos, a quem eles apoiaram ou por quem foram apoiados, e o mesmo deve ser feito em relação aos partidos.

Enfim, o resultado das urnas é soberano e reflete o desejo de toda uma coletividade, ou pelo menos da maior parte dela. Assim é a democracia, o governo do povo. Acredito que o resultado das eleições em Salvador, alijando do 2º turno o herdeiro do Carlismo e da Ditadura militar, esteja acenando para a ratificação de que vivemos um novo tempo neste país. Um tempo de construção, é bem verdade, mas de uma construção cada vez mais sólida e num rumo mais auspicioso.

Em Amargosa... o que se pode dizer? No mínimo que venceu quem fez política com critério e seriedade, quem tem administrado a cidade com coerência e dignidade. Acho que não precisa dizer mais nada. Resta respeitar a escolha do povo e respeitar também o sentimento de derrota dos adversários. Agora é fiscalizar e colaborar com mais esse governo, para que ele seja cada vez mais dinâmico e eficiente, para o bem da nossa cidade.  Parabéns, prefeito e vice-prefeita, parabéns, eleitores, parabéns vereadores, e principalmente: parabéns, Amargosa!

Pausa para Reflexão

É... este blog deu uma pausa! Grande até demais pro meu gosto. Tem me faltado mais inspiração que tempo, é verdade. Acho que se deve ao turbilhão de coisas que têm ocorrido nas últimas semanas. Mas, apesar de não ser candidato, tenho promessas a fazer. Acho que 2008 tem sido o ano mais produtivo deste blog, pelo menos em quantidade de publicações. E vai continuar assim. A "pausa para a reflexão" está terminando, e logo voltarei a minha regularidade por aqui.

Em tempo: Nos próximos dias vem mais uma eleição, um momento que merece (muita) reflexão. Mais uma vez um ato nosso irá definir o nosso futuro nos próximos quatro anos. Tenho ficado feliz com o avanço do processo democrático, e principalmente com a eficiente atuação da Justiça Eleitoral, tendo cumprido suas funções com velocidade e acerto, pelo menos aqui em Amargosa. E que isso se estenda a cada cidade deste país, que a impunidade diminua ou seja extinta de vez, que cada cidadão tenha o efetivo direito de escolher seus candidatos sem a interferência do poder econômico, e melhor: que cada cidadão tenha o poder de refletir criticamente sobre os candidatos, sobre sua conduta e propostas e assim, possa escolher realmente os melhores.

O voto é a nossa demonstração de força, não um bilhete de loteria efêmera e ilusória.

 

NÃO SEJA ALIENADO: INVESTIGUE O PASSADO!

Um forte abraço, até a próxima!

PAINEL DA LITERATURA BAIANA CONTEMPORÂNEA
A importância da Politização

 

Ao cidadão não basta acompanhar a política por um único meio de comunicação ou pelo disse-me-disse das ruas. É preciso haver responsabilidade, consciência ao difundir informações e no mínimo curiosidade ao escutá-las. Sim, responsabilidade em não transformar em mentira fatos verdadeiros e vice-versa e curiosidade em investigar se aquela informação dada condiz com a realidade.

Parece uma tarefa simples, fazer tudo isso, mas não é. Primeiro porque neste país há um antigo costume de se repetir a mentira até virar verdade, graças aos interesses escusos de muitos meios de comunicação e da falta de memória do povo. Segundo porque paira no ar uma impressão de que busca por variedade de informações e pelo conhecimento são coisas sem valor, postas em prática apenas por intelectuais pouco afeitos à prática das situações cotidianas. Enquanto esses pensamentos perdurarem no Brasil, a politização continuará a ser uma bela utopia.

Politizar-se, portanto, não se limita a saber da vida dos políticos ou quanto ganham ou deixam de ganhar. É uma atividade constante, que exige do cidadão um cuidado especial em investigar sempre que possível quais projetos foram apresentados por quais políticos, quem votou a favor ou contra ações que beneficiariam ou prejudicariam a população, quem se envolveu ou apoiou políticos comprovadamente corruptos.

E mais um importante detalhe: a memória. Não nos esqueçamos de quem um dia roubou, desviou dinheiro, envolveu-se em escândalos, para que nunca mais volte à vida pública. Agindo assim, poderemos nos considerar um pouco mais politizados.

 

Uma pequena homenagem

Réquiem para Nilson Lomanto

                                                                                  Por André Galvão

 

Conheci “Dr. Nilson” pelas histórias que meu pai e minha mãe contavam quando Nilson Lomanto era diretor do Colégio Pedro Calmon. Também ouvi muitas vezes deles dois que o colégio nunca mais fora o mesmo depois de sua saída da direção.

Aliás, dele sempre ouvi as melhores histórias. As mais incríveis, é bem verdade, seriam contadas a mim por seu neto Vinícius, depois que nos tornamos amigos. Só não conhecia seu lado poeta, ou não, como ele mesmo diz em seu livro “Caminhos”, com o prefácio “Se eu fosse poeta”. Era sim, Dr. Nilson, e isso já se pode perceber antes mesmo de ler seus poemas, ao vislumbrar a frase: “felicidade não é o que os outros pensam e sim o que você sente”. E essa frase é o quê, senão pura poesia?

Quem me presenteou com o livro foi seu outro neto, Caio, meu aluno, que antes havia me mostrado alguns belos poemas de seu avô. Como gosto de (boa) poesia, não pude deixar de “degustar” o livro, identificando imediatamente o aspecto que mais se destaca em seus poemas: o cunho memorialista, que nesse caso, nos ajuda a viajar por suas lembranças e visões de uma Amargosa tão mágica quanto saudosa e que os desaventurados da minha geração e das vindouras nunca terão o prazer de vivenciar.

No aspecto formal, é constante a presença de sonetos, o que denota uma preocupação flagrante com a arrumação das idéias e sentimentos. No conteúdo, além do memorialismo, doses de humor e ironia, com prováveis influências de grandes poetas da nossa literatura. No quesito humor, destaque para o poema “As línguas”, que surpreende o leitor com seu desfecho, pois começa a falar dos idiomas, mas passando pela saborosa língua de boi “cheia, frita ou de ensopado”, conclui que “Língua gostosa? Sim, é da mulher, / Que se morde e chupa, até o pé”.

O memorialismo se destaca na obra de Nilson Lomanto a começar pelo poema “Velhas lembranças”, no qual “As recordações d’outrora, / Já não são mais realidade, / Lembrança que traz, minora / Da infância, a saudade”. Esse tom permanece em “Raul, o meu pai”, uma clara homenagem ao pai, eternizando seu nobre legado: “Deixou de herança, honestidade. / Para as desditas, sempre coragem! / Sem medo! A morte era fatalidade, / A existência? Era uma passagem...”. E essa passagem é revisitada no poema de sugestivo título: “Reminiscência”, indicando o que é para todos inevitável: “Mas, a morte é destino: meu e seu...”.

A coletânea de poemas é fechada em grande estilo: o poema “Amargosa” traz em sua composição uma bela homenagem, na verdade uma declaração de amor a esta cidade, e ao mesmo tempo um libelo de esperança por seu futuro, ao tempo em que retoma momentos de sua história: “Já, mais de um século é passado, / Quando ‘Bandeiras’ chegaram na região, / Índio espantado, onças acuando, / Subindo as margens do Ribeirão”. O nome da cidade, que indica algo amargo, é logo explicado: “O nome parece uma sobrecarga, / Mas é, segundo o dito popular, / Legado das pombas de carne amarga, / Caçada às sombras do Jequitibá”. A referência ao nome da cidade é o mote que encerra o poema e o livro com um traço marcante de humor: “Se bem atentarmos, é confirmado, / Que o nome nunca deve dar azar, / Quando, se por dois verbos é formado, / Verbos primorosos: AMAR e GOZAR”.

A poesia de Nilson Lomanto, além de bela e rica em suas referências e preocupações formais, é um patrimônio de Amargosa, pois revela um traço importante de sua identidade, remonta a passagens importantes de sua história. Essa poesia é um arcabouço de imagens que, pertencentes a um homem que carregava sua cidade e sua família no coração, e a elas conhecia como poucos, só pode ser um referencial indispensável para se vislumbrar a cultura amargosense.

Como diz Linda Hutcheon, “só existem verdades no plural”, e as verdades que estão cristalizadas na obra poética de Nilson Lomanto são marcas inexoráveis da sua privilegiada visão sobre sua família, sobre sua cidade, e principalmente sobre a existência, essa “passagem” imprevisível e curta, mas carregada de belezas.

Noslim, como se denominava em seus poemas, passou. Viveu essa passagem como poucos, deixando legados que certamente vão muito além do vigor  de seus poemas. Lembro-me de que meu pai também nos deixou pouco tempo depois dele. E, se como dizia Guimarães Rosa, “a gente não morre, fica encantado”, eles, amigos que eram, estão encantados, em algum lugar, discutindo literatura e rezando por uma Amargosa cada vez mais linda, como certamente ela era quando ainda estavam por aqui.

"Ano de política"

 

2008 é mais um ano de eleições, não um “ano de política”, como muita gente fala. Até mesmo porque política se faz mesmo é diariamente, acompanhando as notícias, as ações dos governantes, a postura de parlamentares, membros do executivo, membros de partidos, discutindo idéias, enfim, participando efetivamente da vida política do lugar onde se vive.

No nosso país, porém, são muitos os que dizem não gostar de “política” e se limitam a dela participar com o seu “direito obrigatório” mais fundamental: o voto. Depois, esquecem em quem votaram ou se limitam a reclamar da ação (ou da falta de ação) dos seus candidatos em mesas de bar, em suas casas ou em conversas informais do cotidiano. Nada de acompanhar as sessões da Câmara Municipal ou mesmo ver a TV Câmara ou TV Senado (na verdade, o que parece é que maioria dos que compraram antenas parabólicas o fizeram apenas para ver melhor um único canal...).

O problema da expressão “ano de política” é que fica parecendo que só existe (ou só se faz) política no país de dois em dois anos! Assim, a população segue alienada, alijada do processo político, participando apenas do processo eleitoral. Cabe-lhe, então, só a escolha dos candidatos, muitas vezes motivada por interesses particulares ou informações distorcidas da grande mídia nacional.

Enquanto a população continuar se eximindo da efetiva participação política, os ocupantes de cargos eletivos continuarão livres para burlar as leis, desviar recursos públicos, não cumprir promessas de campanha, pois não serão cobrados por nada disso. Pelo contrário, têm certeza da impunidade dos seus atos e o pior: têm certeza da sua absolvição pelos eleitores, afinal retornam aos mesmos cargos nas próximas eleições “pelos braços do povo”, que já deu provas inequívocas de que tem memória curta.

E muitas vezes, a “memória curta” se transforma em “memória seletiva”, pois as condutas reprováveis do candidato são “esquecidas” por mera conveniência. Não importa o que ele ou seus aliados fizeram meses ou anos atrás. Se vou me favorecer coma a sua eleição, tudo bem, não importa que toda a coletividade se dê mal. É um pensamento mesquinho e muito equivocado: se a coletividade não vai bem, assim também vai o individual. Isso é óbvio!

Esse quadro de omissão política do povo brasileiro só pode lhe trazer os piores resultados possíveis. Se quisermos ver mudanças verdadeiras na situação geral do país, precisamos buscar fontes alternativas de informação, variar a leitura de jornais e revistas e também os canais de TV e, de posse das informações, cobrar com mais veemência dos políticos a sua ação para a melhoria da coletividade. Como dizia o historiador inglês Arnold Toynbee, “o mal daqueles que não gostam de política é que serão governados por aqueles que gostam”.

Sobre o erro

Ao contrário daqueles que insistem na idéia de mudar o mundo, eu prefiro tentar mudar a mim mesmo. Começar por mim a empreitada extensa de ajudar na produção de um mundo melhor pra se viver. Reconhecer meus erros, analisá-los, tentar consertá-los, e o mais importante: aprender com eles. Claro que isso não me impede de enxergar os erros alheios e também aprender com eles, e também tentar analisá-los e consertá-los.

Quem não erra? Quem nunca errou? Todos nós somos verdadeiras máquinas de errar. Cotidianamente, o tempo todo erramos. E assim vamos construindo o nosso caminho e o do mundo como um todo. Tem uma música do Humberto Gessinger em que ele diz: “Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”. Cada erro é também imprescindível para a construção da nossa personalidade. Muitos deles são dolorosos, e de tanto serem assim, desejamos não tê-los cometido, mas se eles acontecem, o que resta agora é tomá-los como lição.

O grande problema é que muitas pessoas, hoje em dia, só enxergam o erro como algo negativo. Portanto, descartam suas lições e tendem a repeti-lo várias vezes, configurando assim o resultado do adágio popular: “Errar é humano, errar duas vezes é burrice”. E quantos por aí têm errado duas, três, quatro vezes e nem param para refletir sobre isso?

Em primeiro lugar, é preciso ter humildade, reconhecer o erro, coisa que pra muita gente é o fim do mundo. Aliás, humildade nos dias de hoje é um artigo de luxo, em falta na maioria das pessoas. A partir do reconhecimento do erro vem a sua análise e por fim o mais importante: o aprendizado. E tem tanta gente que não alcança nem o primeiro estágio!

Estamos sujeitos aos erros, isso é absolutamente normal. Não é normal ocultá-los, fazermos de conta que não os cometemos. Isso não é humano, nem mesmo “burrice”: é tão somente uma atitude irracional. Mais uma vez recorrendo aos sábios ditados populares: “Pé que não anda não dá topada”! E você, já tropeçou hoje?

Ousadia Literária 3

DESCAMINHO

 Por André Galvão

 

Já eram mais de quatro horas da tarde. Ele sabia que ela não viria mais. Porém, ainda assim, insistia em ficar ali, inquieto, imaginando ser o centro das atenções dos olhares ao redor. Parece ser sempre assim quando se espera alguém que não vai chegar.

Não era a primeira vez. Tantas foram as ocasiões em que ela marcara um encontro e não aparecera. E ele sempre esperava. Tentava acreditar naqueles olhos misteriosos. Ela nunca foi a nenhum dos encontros. No dia seguinte, quando a via, ela inaugurava um sorriso inocente, de quem não sabia ao certo o que aconteceu. Era espontâneo demais, e isso o magoava ainda mais. E para desarmá-lo, ela sussurrava ao seu ouvido que estava com saudade, e um misto de indignação e atordoamento o tomava de pronto.

Aquela história nasceu e morreu pela metade. Ela disse várias vezes que o amava, em meio aos “furos” aos encontros, em meio a nenhuma certeza. Ele se alimentava dessa dúvida, e se envolvia com a velocidade de quem se empenha em pular do último andar do prédio, irrevogavelmente.

Eis que um dia, ele decidiu esquecer tudo aquilo. Ensaiou em casa o que dizer. O espelho não o suportava mais. Mas estava decidido: era o momento de tudo isso acabar. Mas não devemos subestimar o poder dos nossos medos, ainda mais quando eles se referem aos gritos que ecoam de nosso coração.

Por uma dessas inexplicáveis arrelias do destino, foi ela a primeira pessoa que viu na porta do colégio. Estava linda, e aquele sorriso iluminado foi a única luz depois de horas de tanta escuridão. Agora seria diferente, não seria sorriso ou sussurro que mudaria a sua intenção de falar tudo o que sentia. Aproximou-se dela, rosto fechado, olhar seco, pisada firme. “A gente precisa conversar agora”, num tom grave e ao mesmo tempo trêmulo. Ela, pra variar, continuou sorrindo e concordou com leves movimentos faciais.

- Pois então fale!

Passados alguns segundos, não conseguiu entoar nenhuma palavra. Aqueles olhos eram uma covardia. Como rejeitar aquele jeito meigo e até mesmo infantil, cheio de ingenuidade e sutileza? Ele não conseguiria.

- Desistiu de falar?

Ela continuava esperando a palestra como quem espera o desfile do circo passar. Sua indiferença pelo que ele tinha por dizer só não era maior que sua impaciência em saber por que ele não dizia nada. Ela não se importava com o que ele dissesse, mas esperava para negar tudo, e mostrar a ele que estava errado. Não o perdoaria. Ele iria se arrepender de acusá-la. Já havia montado toda a sua estratégia, não importava o que revelasse.

Ele continuava quieto. Estranhamente, não parecia se esforçar mais em falar alguma coisa. Apenas a olhava como se estivesse contemplando o mar. Deslumbrado, absorto, envolvido por aqueles olhos cheios de vida, desarticulado pelo medo e pela timidez que carregava em si. Não haveria de dizer nada mesmo.

-Não vai falar? Então vou embora!

Pela primeira vez enxergou naqueles olhos um tom de despeito. Achou estranho o que vira. Ainda não se apercebera de verdade do que acontecia. Segurou-a pelo braço, olhou fixamente nos olhos, como quem procurava beber uma pequena dose de verdade. Mas estava tudo seco naquelas plagas.

Ela se soltou, e finalmente aquele sorriso inquietante se desfez. Agora, olhava-o com raiva, não admitia ser enfrentada. O silêncio a ferira mais que uma torrente de palavras. Percebeu que ele mudou, que o seu não falar era um assombro, mas era também uma fortaleza. Parece que ele se alimentou do que não disse, e agora tinha forças pra quebrar o seu encanto.

Ele não falou nada.

Em meio ao rosto crispado de raiva, ele deixou escapar duas ou três lágrimas, que puseram em sua boca o gosto salgado do fim. Não podia amar alguém assim, mas amava! Não havia linha que costurasse aquele rasgo que sentia no peito. A única coisa a fazer era ir embora, mas um tanto de raiva e angústia ardia em seus olhos marejados. Ficaria calado? Isso era covardia demais!

Enquanto decidia atordoado o que fazer, ela viu que não teria com o que brigar, não precisava armar revide, não haveria mesmo ataque. Era difícil esperar algo diferente de quem sempre esteve “na mão”, como um pássaro que desaprende a viver sozinho na mata.

- Covarde! Eu vou-me embora é agora mesmo!

Aquilo estranhamente o aliviou. Vê-la se dissolvendo no frio da manhã era agora um alento. Restava ir embora também, apagá-la de uma vez do coração, pois não merecia tanto esforço. Era assim, até que ela, do meio do caminho, voltou-se para ele:

- E você ainda acreditou que eu te amava? Nem por um segundo! Como amaria uma pessoa que nem tem coragem de dizer o que sente? Covarde, é isso que você é!

Agora, todos ao redor haviam se apercebido do que acontecia. Olhares e risadas cortantes se anunciavam no horizonte. Ele não podia mais esperar, era hora de fazer alguma coisa. E fez.

Tomado por uma raiva lancinante, correu em sua direção, puxou-a nos braços e deu-lhe um longo e forçado beijo, enquanto ela se debatia em seus braços. Em meio aos gritos e à surpresa de todos que viam a cena, seu êxtase se cristalizava como num sonho.

Quando finalmente a soltou, um susto. Viu, naquele rosto marcado pelo sorriso, as lágrimas vertendo-se em profusão. Ele a vencera pelo sentimento, sua vingança era premiá-la com seu primeiro beijo, motivado pelo ódio, justificado pelo amor.

Ele, então, se pôs a sorrir, virou as costas e saiu em paz daquele lugar.
Ousadia Literária 2 - O retorno

Como eu disse, não sou muito de escrever textos ficcionais em prosa... mas por onde passa um boi, passa uma boiada! Como o pessoal gostou, vai mais um texto. Não prometo nada, mas sempre é muito bom saber a opinião de vocês. Boa leitura!

MEMÓRIA

Por André Galvão

 

Eu não queria voltar. Nada mais me interessava ali. Tudo era um sem-fim de recordações dolorosas e inúteis. A maior delas, uma dúvida, uma provocação, uma daquelas feridas mal curadas do coração. Ainda assim, precisava ir, melhor, precisava voltar. Não podia mais negar o meu futuro: agora ele se encontrava com o meu passado.

Aquelas ruas pareciam tão estranhas, tão vazias de substância. Nada naquele lugar me parecia familiar. Talvez tivesse bloqueado em minha mente aquelas coisas, fatos, pessoas, casas, ruas... Seria então uma espécie de proteção, uma armadura contra o tempo. Bobagem! Tem feridas que doem demais para sarar. Nunca saram, na verdade.

Depois de tantos anos, eu estava ali. No meio da praça, tentando cavar em minha alma um pouco de coragem, de vontade de seguir adiante. Jamais me percebera tão covarde, hesitante. Era o medo: medo de encontrá-la, de sentir aquele punhal pungente em meu peito de novo, sangrar as fendas da memória. Esse era, em verdade, o meu maior temor.

Um vento frio de inverno cortava a praça, que permanecia calma e vazia. Nem mesmo os pombos, tão comuns por ali, visitavam os bancos e monumentos. Só eu, de volta, reimerso nas lembranças, encontrava nas esquinas imaginárias breves lapsos de sorrisos, coalhados de dor e frustração.

Não queria admitir, mas aqueles sentimentos confusos também abriam espaço para pequenas doses de esperança. Sim, esperança! Por mais contraditório que pareça, guardava secretamente uma tênue esperança de revê-la, após tantos anos, após tanto sofrimento. Será que ela ainda estava ali? Meu corpo gelava mais com essa pergunta que com o frio que tomava a velha praça. E nada poderia aquecer essa dúvida.

Sentei naquela antiga padaria e pedi um café. Sem leite, forte e bem quente, como mais aprecio. Era uma tentativa patética de esquentar o corpo, ou quem sabe, o coração. O café não veio tão quente nem tão forte, mas foi o suficiente. Por alguns segundos, degustá-lo foi uma abstração reconfortante. Lembrei-me do meu pai, dos meus amigos, da infância longínqua acostumada a sentir o cheiro das chaminés das torrefações. De novo, o passado. E assim foi por vários dias.

Voltei a nossa velha casa, revisitei seus quartos e tremi de angústia ao ver tudo aquilo. O vazio me causa repugnância, uma estranha sensação de que não há onde me apoiar. Mas era necessário passar por todas essas situações. Cumpria assim as formalidades da vida burocrática que levamos, sem trazer à análise as dores comuns do nosso subconsciente.

Durante aqueles dias, a cidade me pareceu extremamente quieta, mais do que parecia ser costume. Isso não chegou a ser um fato estranho, uma vez que se tratava de uma cidadezinha perdida no interior de um vale, onde só o trem penetrava desviando dos meandros das serras que cortavam a região. Estava tão entorpecido pelas lembranças que não podia reparar quase nada ao meu redor.

Enfim, aquela seria a minha última noite na cidade. Já havia cumprido minhas obrigações, esperava apenas pelo trem no dia seguinte, que sairia no início da tarde. Até lá, poderia me recolher ao lúgubre quarto da pousada, e com o auxílio de um candeeiro de luz vacilante, ler algumas linhas de um dos livros que trouxe como companheiros de viagem.

Porém, por um desses desavisos da vida, não segui a tentadora opção de recolhimento literário e resolvi dar um passeio noturno pelas desertas e mal iluminadas ruas do centro. Havia poucas pessoas na praça, talvez atraídas pelo insistente pipoqueiro que desafiava o frio para fazer estourar, no seu carrinho, as pipocas que preenchiam a noite dos transeuntes. Tive a impressão de que todos se intrigaram com a minha presença por ali.

Segui adiante, deixei pra trás os olhares curiosos e subi uma pequena e íngreme ladeira que dava acesso à Catedral. A igreja estava fechada, não era dia de missa, mas havia uma luz acesa ao fundo, seguindo pela lateral do prédio. Lógico que não deveria seguir esse caminho, mas foi o que fiz. A luz que avistei se espalhava pela noite através uma porta entreaberta, que deixava passar também um inebriante cheiro de incenso. Empurrei a porta e entrei num pequeno quarto onde estavam algumas velas acesas. Aparentemente não havia ninguém e, como não havia mais o que fazer lá, decidi ir embora.

Foi quando ouvi uma voz bonita e suave: “Ei, espere!”. Virei-me novamente para o quarto e não vi ninguém. Foi estranho: não tive medo. Pelo contrário, não sei de onde me veio aquela coragem para voltar. Não cheguei a entrar no quarto. Antes disso, eu a vi. Era ela! Vestida de branco, como uma religiosa, a me olhar com surpresa e constrangimento.

Ela estendeu a mão para mim e seus olhos me convidavam a um abraço. Eu hesitei, dei um passo para trás e ela sorriu discretamente. Em instantes, a minha feição mudara, oscilava entre surpresa e indignação e apertava os olhos para ter certeza do que via. Era ela! Depois de tanto, ali estava! Não parecia mais aquela criatura que desdenhava dos meus sentimentos. Era uma pessoa meiga e calma que me olhava com uma ternura indescritível...

- Meus desejos se realizaram, disse ela. Rezei tanto pra te ver de novo, e aqui está você.

A minha resposta foi um silêncio indevassável. A boca cheia de palavras que não se encaixavam. A mente vazia de idéias, de pensamentos. Apenas fitava seus olhos com frieza.

- Desde que você foi embora, me enclausurei nesse quarto. Precisava pagar pelos meus pecados. Um grande amor não pode ser menosprezado. Entendo que você não me aceite novamente. Mas preciso de seu perdão – é a única forma de voltar a viver como uma pessoa comum. Como uma maldição, depois de tudo o que houve, as pessoas me detestam e mesmo as que nem desconfiam do que aconteceu entre nós me tratam mal e não admitem minha presença nem mesmo nas missas. Assim, tive de me recolher aqui por piedade do sacristão. Agora você pode desfazer esse sofrimento.

Eu sorri pra ela. Abracei-a. Depois, a olhei nos olhos em silêncio por alguns segundos, coloquei as minhas mãos sobre seu pescoço e, não sei bem por que, tive vontade de estrangulá-la, tamanha a raiva que se abateu sobre mim. A cólera no meu rosto a assustou e sua expressão de medo atenuou a minha ira. Dei um passo para trás, peguei uma cadeira e quebrei-a no altar onde estavam as velas acesas. Ela chorava, mas isso só aumentava o meu descontrole. Seus cabelos negros despenteados batiam no meu rosto, em meio às inúteis tentativas de me parar. Não adiantou. Destruí tudo o que vi pela frente, inclusive a última centelha de amor que restava em mim. Saí pela porta sem olhar pra trás. Não queria mais ver aquele rosto. A maldição dela foi a minha cura, mas nunca pude me sentir feliz por isso.

No dia seguinte, peguei o trem e nunca mais voltei àquela cidade. Anos depois, soube por um amigo de infância do caso de uma louca que andava vestida de branco, à noite, gritando de dor, pedindo perdão. Ela morreu pouco mais de três anos depois de nos vermos. Mas não sinto remorso ou saudade. Apenas alívio.

 

O São João voltou!

Em outras oportunidades, usei este blog e outros meios para criticar a degradação da cultura junina no interior da Bahia. Hoje, meu objetivo é outro. Além de criticar, devemos também reconhecer os méritos, os acertos, quando eles ocorrem. Esse é o caso do São João de Amargosa em 2008.

Há quanto tempo eu não via um São João tão verdadeiro, tão bem organizado e fiel às tradições! Não, não sou um conservador, mas vejo com angústia o quanto a nossa sociedade vem pagando por não valorizar seu passado, suas tradições. E em 2008, o que eu vi em Amargosa foi uma festa organizada, bem estruturada, num local (Praça do Bosque) que sem dúvidas é um dos melhores da Bahia para eventos do tipo. A homenagem aos bonecos foi perfeita, a decoração de muito bom gosto.

A Vila Junina é um sucesso, a despeito de alguns moradores da cidade que parecem não ter cultura suficiente pra entender o seu real significado. A disposição do Bosque melhorou e muito, agora há mais espaço para dançar e também para sentar nos bares. O respeito à tradição e a logística da festa certamente atrairão mais turistas para 2009, porque a propaganda boca a boca ainda é muito forte no circuito das festas juninas.

Destaque também para a grade de atrações. A prefeitura foi muito feliz na escolha dos artistas que se apresentaram em 2008. É bem verdade que, por necessidade comercial, faz-se necessário contratar algumas pseudo-bandas de forró (nenhuma banda que tem "forró" no nome toca forró de verdade!), mas isso foi o mínimo neste ano. Tivemos shows memoráveis de Waldonys, Santana, Flávio José, Hugo Luna, Megaxote, Estakazero, Cissinho de Assis e até de Bruno & Marrone (que nem são forrozeiros...). Deu gosto ir ao Bosque ver os shows!

A jogada comercial do ano foi colocar a dupla sertaneja (?) Bruno & Marrone para o último dia. Nos últimos dez anos, não me lembro de um último dia tão lotado. Se eles não tocam forró, pelo menos são uma atração nacional, e como tal, atraem uma legião de fãs que movimentam a festa. Levam o nome de Amargosa para todo o país. Isso é uma propaganda inestimável.

Como contraponto, vou usar o mote da fala de Santana em seu show, pedindo aos comerciantes que não explorassem o visitante. Eu entendo que alguns comerciantes da cidade (até os eventuais) só têm os dias da festa junina para arrecadar um dinheirinho extra. Mas, salvo algumas exceções, é bom que se diga, há muita exploração sobre o preço de produtos e serviços durante o São João, e se o turista chega aqui e se sente explorado, ele não volta, não recomenda a cidade aos amigos, familiares, colegas. O turista é um multiplicador, e se ele for bem tratado, além de voltar, traz com ele vários outros e isso significa mais dinheiro circulando no comércio local. Essa não é uma equação tão difícil de entender.

Por outro lado, os turistas, principalmente, também protagonizaram o aspecto mais negativo do São João. Não é de hoje que critico a postura incoerente de alguns turistas que se acham "donos da cidade". Esse tipo de pessoas, que infelizmente aumenta a cada ano (como uma consequência direta da desintegração dos valores morais como um todo na sociedade moderna), acha que tudo pode só por estar em uma cidade pequena. As ridículas cenas de competição de sons de carro tocando os pagodões acéfalos ou os "créus" insanos se espalharam por toda a cidade durante a festa. Uma pena que esses idiotas achem que com isso estão sendo bem vistos ou invejados. Deveriam pendurar uma melancia no pescoço. Vai se chegar ao ponto de ser necessário limitar os decibéis dos sons de carro no São João. Na verdade, eu acho que isso já deveria acontecer, mas é uma opinião minha, com a qual muita gente não concorda, o que é absolutamente normal.

Em resumo, somando aspectos positivos e negativos, o São João 2008 em Amargosa foi excelente. Há sempre os insatisfeitos, que por algum motivo não vão concordar com a minha opinião. Paciência. De qualquer forma, deixo aqui os meus parabéns à Prefeitura Municipal e a todos aqueles que participaram da organização da festa. Parabéns também aos comerciantes, aos funcionários da limpeza, aos artistas e aos que foram se divertir no bosque. Esse êxito é de todos. E que 2009 seja ainda melhor!

 

Inquietude existencial ou a época do caos

Vivemos uma época no mínimo engraçada. Um tempo em que as crianças de 9, 10 anos exigem dos pais um celular, e o pior: alguns pais realmente acham isso essencial! Uma época em que as pessoas (acham que) conhecem as outras pelo perfil do Orkut, uma época em que nesse mesmo Orkut mantemos como “amigos” pessoas que nunca vimos ou que conhecemos apenas de ouvir falar.

Os valores morais, culturais viraram farofa... A música virou um reduto de idiotas acéfalos que produzem ritmos repetidos associados a pseudo-letras cheias de rimas não menos idiotas. E há muitos, muitos mesmo, que os cultuam. A tradição virou uma coisa chata e ultrapassada. Até a educação vive influenciada por idéias “revolucionárias” importadas que têm produzido safras de alunos alienados, insubordinados e despreparados para a vida e para o mercado de trabalho.

A memória tem sido trocada por drops de atualidades que se tornam automaticamente obsoletas ao sabor da notória velocidade da informação no mundo virtual. As bibliotecas estão sendo trocadas pelas lan houses, e livros estão se tornando coisas pesadas e chatas, que são compradas apenas quando determinado autor está na moda. E geralmente os que têm andado na moda são os que trazem velhas fórmulas prontas ou nos empurram ideologias falidas convertidas em livros de auto-ajuda.

A futilidade dita relacionamentos, a mídia incita uma revolução sexual descontrolada e equivocada, e a lógica de consumo se estende também à quantidade de pessoas que se “pega” ou... deixa pra lá!

É óbvio que não cabe aqui generalizar sobre o que foi dito acima, por isso é bom lembrar que essa não é uma retórica extensa a todos, mas a um setor da sociedade que age seguindo essas diretrizes. Se lhe coube carapuça, paciência. Diz o povo em sua sabedoria (que ainda persiste, ufa!) que a verdade dói. Concordo plenamente. Dói pra todos nós.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Nordeste, AMARGOSA, Homem, de 26 a 35 anos
Visitante número: