PAINEL DA LITERATURA BAIANA CONTEMPORÂNEA
A importância da Politização

 

Ao cidadão não basta acompanhar a política por um único meio de comunicação ou pelo disse-me-disse das ruas. É preciso haver responsabilidade, consciência ao difundir informações e no mínimo curiosidade ao escutá-las. Sim, responsabilidade em não transformar em mentira fatos verdadeiros e vice-versa e curiosidade em investigar se aquela informação dada condiz com a realidade.

Parece uma tarefa simples, fazer tudo isso, mas não é. Primeiro porque neste país há um antigo costume de se repetir a mentira até virar verdade, graças aos interesses escusos de muitos meios de comunicação e da falta de memória do povo. Segundo porque paira no ar uma impressão de que busca por variedade de informações e pelo conhecimento são coisas sem valor, postas em prática apenas por intelectuais pouco afeitos à prática das situações cotidianas. Enquanto esses pensamentos perdurarem no Brasil, a politização continuará a ser uma bela utopia.

Politizar-se, portanto, não se limita a saber da vida dos políticos ou quanto ganham ou deixam de ganhar. É uma atividade constante, que exige do cidadão um cuidado especial em investigar sempre que possível quais projetos foram apresentados por quais políticos, quem votou a favor ou contra ações que beneficiariam ou prejudicariam a população, quem se envolveu ou apoiou políticos comprovadamente corruptos.

E mais um importante detalhe: a memória. Não nos esqueçamos de quem um dia roubou, desviou dinheiro, envolveu-se em escândalos, para que nunca mais volte à vida pública. Agindo assim, poderemos nos considerar um pouco mais politizados.

 

Uma pequena homenagem

Réquiem para Nilson Lomanto

                                                                                  Por André Galvão

 

Conheci “Dr. Nilson” pelas histórias que meu pai e minha mãe contavam quando Nilson Lomanto era diretor do Colégio Pedro Calmon. Também ouvi muitas vezes deles dois que o colégio nunca mais fora o mesmo depois de sua saída da direção.

Aliás, dele sempre ouvi as melhores histórias. As mais incríveis, é bem verdade, seriam contadas a mim por seu neto Vinícius, depois que nos tornamos amigos. Só não conhecia seu lado poeta, ou não, como ele mesmo diz em seu livro “Caminhos”, com o prefácio “Se eu fosse poeta”. Era sim, Dr. Nilson, e isso já se pode perceber antes mesmo de ler seus poemas, ao vislumbrar a frase: “felicidade não é o que os outros pensam e sim o que você sente”. E essa frase é o quê, senão pura poesia?

Quem me presenteou com o livro foi seu outro neto, Caio, meu aluno, que antes havia me mostrado alguns belos poemas de seu avô. Como gosto de (boa) poesia, não pude deixar de “degustar” o livro, identificando imediatamente o aspecto que mais se destaca em seus poemas: o cunho memorialista, que nesse caso, nos ajuda a viajar por suas lembranças e visões de uma Amargosa tão mágica quanto saudosa e que os desaventurados da minha geração e das vindouras nunca terão o prazer de vivenciar.

No aspecto formal, é constante a presença de sonetos, o que denota uma preocupação flagrante com a arrumação das idéias e sentimentos. No conteúdo, além do memorialismo, doses de humor e ironia, com prováveis influências de grandes poetas da nossa literatura. No quesito humor, destaque para o poema “As línguas”, que surpreende o leitor com seu desfecho, pois começa a falar dos idiomas, mas passando pela saborosa língua de boi “cheia, frita ou de ensopado”, conclui que “Língua gostosa? Sim, é da mulher, / Que se morde e chupa, até o pé”.

O memorialismo se destaca na obra de Nilson Lomanto a começar pelo poema “Velhas lembranças”, no qual “As recordações d’outrora, / Já não são mais realidade, / Lembrança que traz, minora / Da infância, a saudade”. Esse tom permanece em “Raul, o meu pai”, uma clara homenagem ao pai, eternizando seu nobre legado: “Deixou de herança, honestidade. / Para as desditas, sempre coragem! / Sem medo! A morte era fatalidade, / A existência? Era uma passagem...”. E essa passagem é revisitada no poema de sugestivo título: “Reminiscência”, indicando o que é para todos inevitável: “Mas, a morte é destino: meu e seu...”.

A coletânea de poemas é fechada em grande estilo: o poema “Amargosa” traz em sua composição uma bela homenagem, na verdade uma declaração de amor a esta cidade, e ao mesmo tempo um libelo de esperança por seu futuro, ao tempo em que retoma momentos de sua história: “Já, mais de um século é passado, / Quando ‘Bandeiras’ chegaram na região, / Índio espantado, onças acuando, / Subindo as margens do Ribeirão”. O nome da cidade, que indica algo amargo, é logo explicado: “O nome parece uma sobrecarga, / Mas é, segundo o dito popular, / Legado das pombas de carne amarga, / Caçada às sombras do Jequitibá”. A referência ao nome da cidade é o mote que encerra o poema e o livro com um traço marcante de humor: “Se bem atentarmos, é confirmado, / Que o nome nunca deve dar azar, / Quando, se por dois verbos é formado, / Verbos primorosos: AMAR e GOZAR”.

A poesia de Nilson Lomanto, além de bela e rica em suas referências e preocupações formais, é um patrimônio de Amargosa, pois revela um traço importante de sua identidade, remonta a passagens importantes de sua história. Essa poesia é um arcabouço de imagens que, pertencentes a um homem que carregava sua cidade e sua família no coração, e a elas conhecia como poucos, só pode ser um referencial indispensável para se vislumbrar a cultura amargosense.

Como diz Linda Hutcheon, “só existem verdades no plural”, e as verdades que estão cristalizadas na obra poética de Nilson Lomanto são marcas inexoráveis da sua privilegiada visão sobre sua família, sobre sua cidade, e principalmente sobre a existência, essa “passagem” imprevisível e curta, mas carregada de belezas.

Noslim, como se denominava em seus poemas, passou. Viveu essa passagem como poucos, deixando legados que certamente vão muito além do vigor  de seus poemas. Lembro-me de que meu pai também nos deixou pouco tempo depois dele. E, se como dizia Guimarães Rosa, “a gente não morre, fica encantado”, eles, amigos que eram, estão encantados, em algum lugar, discutindo literatura e rezando por uma Amargosa cada vez mais linda, como certamente ela era quando ainda estavam por aqui.

"Ano de política"

 

2008 é mais um ano de eleições, não um “ano de política”, como muita gente fala. Até mesmo porque política se faz mesmo é diariamente, acompanhando as notícias, as ações dos governantes, a postura de parlamentares, membros do executivo, membros de partidos, discutindo idéias, enfim, participando efetivamente da vida política do lugar onde se vive.

No nosso país, porém, são muitos os que dizem não gostar de “política” e se limitam a dela participar com o seu “direito obrigatório” mais fundamental: o voto. Depois, esquecem em quem votaram ou se limitam a reclamar da ação (ou da falta de ação) dos seus candidatos em mesas de bar, em suas casas ou em conversas informais do cotidiano. Nada de acompanhar as sessões da Câmara Municipal ou mesmo ver a TV Câmara ou TV Senado (na verdade, o que parece é que maioria dos que compraram antenas parabólicas o fizeram apenas para ver melhor um único canal...).

O problema da expressão “ano de política” é que fica parecendo que só existe (ou só se faz) política no país de dois em dois anos! Assim, a população segue alienada, alijada do processo político, participando apenas do processo eleitoral. Cabe-lhe, então, só a escolha dos candidatos, muitas vezes motivada por interesses particulares ou informações distorcidas da grande mídia nacional.

Enquanto a população continuar se eximindo da efetiva participação política, os ocupantes de cargos eletivos continuarão livres para burlar as leis, desviar recursos públicos, não cumprir promessas de campanha, pois não serão cobrados por nada disso. Pelo contrário, têm certeza da impunidade dos seus atos e o pior: têm certeza da sua absolvição pelos eleitores, afinal retornam aos mesmos cargos nas próximas eleições “pelos braços do povo”, que já deu provas inequívocas de que tem memória curta.

E muitas vezes, a “memória curta” se transforma em “memória seletiva”, pois as condutas reprováveis do candidato são “esquecidas” por mera conveniência. Não importa o que ele ou seus aliados fizeram meses ou anos atrás. Se vou me favorecer coma a sua eleição, tudo bem, não importa que toda a coletividade se dê mal. É um pensamento mesquinho e muito equivocado: se a coletividade não vai bem, assim também vai o individual. Isso é óbvio!

Esse quadro de omissão política do povo brasileiro só pode lhe trazer os piores resultados possíveis. Se quisermos ver mudanças verdadeiras na situação geral do país, precisamos buscar fontes alternativas de informação, variar a leitura de jornais e revistas e também os canais de TV e, de posse das informações, cobrar com mais veemência dos políticos a sua ação para a melhoria da coletividade. Como dizia o historiador inglês Arnold Toynbee, “o mal daqueles que não gostam de política é que serão governados por aqueles que gostam”.

Sobre o erro

Ao contrário daqueles que insistem na idéia de mudar o mundo, eu prefiro tentar mudar a mim mesmo. Começar por mim a empreitada extensa de ajudar na produção de um mundo melhor pra se viver. Reconhecer meus erros, analisá-los, tentar consertá-los, e o mais importante: aprender com eles. Claro que isso não me impede de enxergar os erros alheios e também aprender com eles, e também tentar analisá-los e consertá-los.

Quem não erra? Quem nunca errou? Todos nós somos verdadeiras máquinas de errar. Cotidianamente, o tempo todo erramos. E assim vamos construindo o nosso caminho e o do mundo como um todo. Tem uma música do Humberto Gessinger em que ele diz: “Se eu soubesse antes o que sei agora, erraria tudo exatamente igual”. Cada erro é também imprescindível para a construção da nossa personalidade. Muitos deles são dolorosos, e de tanto serem assim, desejamos não tê-los cometido, mas se eles acontecem, o que resta agora é tomá-los como lição.

O grande problema é que muitas pessoas, hoje em dia, só enxergam o erro como algo negativo. Portanto, descartam suas lições e tendem a repeti-lo várias vezes, configurando assim o resultado do adágio popular: “Errar é humano, errar duas vezes é burrice”. E quantos por aí têm errado duas, três, quatro vezes e nem param para refletir sobre isso?

Em primeiro lugar, é preciso ter humildade, reconhecer o erro, coisa que pra muita gente é o fim do mundo. Aliás, humildade nos dias de hoje é um artigo de luxo, em falta na maioria das pessoas. A partir do reconhecimento do erro vem a sua análise e por fim o mais importante: o aprendizado. E tem tanta gente que não alcança nem o primeiro estágio!

Estamos sujeitos aos erros, isso é absolutamente normal. Não é normal ocultá-los, fazermos de conta que não os cometemos. Isso não é humano, nem mesmo “burrice”: é tão somente uma atitude irracional. Mais uma vez recorrendo aos sábios ditados populares: “Pé que não anda não dá topada”! E você, já tropeçou hoje?

Ousadia Literária 3

DESCAMINHO

 Por André Galvão

 

Já eram mais de quatro horas da tarde. Ele sabia que ela não viria mais. Porém, ainda assim, insistia em ficar ali, inquieto, imaginando ser o centro das atenções dos olhares ao redor. Parece ser sempre assim quando se espera alguém que não vai chegar.

Não era a primeira vez. Tantas foram as ocasiões em que ela marcara um encontro e não aparecera. E ele sempre esperava. Tentava acreditar naqueles olhos misteriosos. Ela nunca foi a nenhum dos encontros. No dia seguinte, quando a via, ela inaugurava um sorriso inocente, de quem não sabia ao certo o que aconteceu. Era espontâneo demais, e isso o magoava ainda mais. E para desarmá-lo, ela sussurrava ao seu ouvido que estava com saudade, e um misto de indignação e atordoamento o tomava de pronto.

Aquela história nasceu e morreu pela metade. Ela disse várias vezes que o amava, em meio aos “furos” aos encontros, em meio a nenhuma certeza. Ele se alimentava dessa dúvida, e se envolvia com a velocidade de quem se empenha em pular do último andar do prédio, irrevogavelmente.

Eis que um dia, ele decidiu esquecer tudo aquilo. Ensaiou em casa o que dizer. O espelho não o suportava mais. Mas estava decidido: era o momento de tudo isso acabar. Mas não devemos subestimar o poder dos nossos medos, ainda mais quando eles se referem aos gritos que ecoam de nosso coração.

Por uma dessas inexplicáveis arrelias do destino, foi ela a primeira pessoa que viu na porta do colégio. Estava linda, e aquele sorriso iluminado foi a única luz depois de horas de tanta escuridão. Agora seria diferente, não seria sorriso ou sussurro que mudaria a sua intenção de falar tudo o que sentia. Aproximou-se dela, rosto fechado, olhar seco, pisada firme. “A gente precisa conversar agora”, num tom grave e ao mesmo tempo trêmulo. Ela, pra variar, continuou sorrindo e concordou com leves movimentos faciais.

- Pois então fale!

Passados alguns segundos, não conseguiu entoar nenhuma palavra. Aqueles olhos eram uma covardia. Como rejeitar aquele jeito meigo e até mesmo infantil, cheio de ingenuidade e sutileza? Ele não conseguiria.

- Desistiu de falar?

Ela continuava esperando a palestra como quem espera o desfile do circo passar. Sua indiferença pelo que ele tinha por dizer só não era maior que sua impaciência em saber por que ele não dizia nada. Ela não se importava com o que ele dissesse, mas esperava para negar tudo, e mostrar a ele que estava errado. Não o perdoaria. Ele iria se arrepender de acusá-la. Já havia montado toda a sua estratégia, não importava o que revelasse.

Ele continuava quieto. Estranhamente, não parecia se esforçar mais em falar alguma coisa. Apenas a olhava como se estivesse contemplando o mar. Deslumbrado, absorto, envolvido por aqueles olhos cheios de vida, desarticulado pelo medo e pela timidez que carregava em si. Não haveria de dizer nada mesmo.

-Não vai falar? Então vou embora!

Pela primeira vez enxergou naqueles olhos um tom de despeito. Achou estranho o que vira. Ainda não se apercebera de verdade do que acontecia. Segurou-a pelo braço, olhou fixamente nos olhos, como quem procurava beber uma pequena dose de verdade. Mas estava tudo seco naquelas plagas.

Ela se soltou, e finalmente aquele sorriso inquietante se desfez. Agora, olhava-o com raiva, não admitia ser enfrentada. O silêncio a ferira mais que uma torrente de palavras. Percebeu que ele mudou, que o seu não falar era um assombro, mas era também uma fortaleza. Parece que ele se alimentou do que não disse, e agora tinha forças pra quebrar o seu encanto.

Ele não falou nada.

Em meio ao rosto crispado de raiva, ele deixou escapar duas ou três lágrimas, que puseram em sua boca o gosto salgado do fim. Não podia amar alguém assim, mas amava! Não havia linha que costurasse aquele rasgo que sentia no peito. A única coisa a fazer era ir embora, mas um tanto de raiva e angústia ardia em seus olhos marejados. Ficaria calado? Isso era covardia demais!

Enquanto decidia atordoado o que fazer, ela viu que não teria com o que brigar, não precisava armar revide, não haveria mesmo ataque. Era difícil esperar algo diferente de quem sempre esteve “na mão”, como um pássaro que desaprende a viver sozinho na mata.

- Covarde! Eu vou-me embora é agora mesmo!

Aquilo estranhamente o aliviou. Vê-la se dissolvendo no frio da manhã era agora um alento. Restava ir embora também, apagá-la de uma vez do coração, pois não merecia tanto esforço. Era assim, até que ela, do meio do caminho, voltou-se para ele:

- E você ainda acreditou que eu te amava? Nem por um segundo! Como amaria uma pessoa que nem tem coragem de dizer o que sente? Covarde, é isso que você é!

Agora, todos ao redor haviam se apercebido do que acontecia. Olhares e risadas cortantes se anunciavam no horizonte. Ele não podia mais esperar, era hora de fazer alguma coisa. E fez.

Tomado por uma raiva lancinante, correu em sua direção, puxou-a nos braços e deu-lhe um longo e forçado beijo, enquanto ela se debatia em seus braços. Em meio aos gritos e à surpresa de todos que viam a cena, seu êxtase se cristalizava como num sonho.

Quando finalmente a soltou, um susto. Viu, naquele rosto marcado pelo sorriso, as lágrimas vertendo-se em profusão. Ele a vencera pelo sentimento, sua vingança era premiá-la com seu primeiro beijo, motivado pelo ódio, justificado pelo amor.

Ele, então, se pôs a sorrir, virou as costas e saiu em paz daquele lugar.
Ousadia Literária 2 - O retorno

Como eu disse, não sou muito de escrever textos ficcionais em prosa... mas por onde passa um boi, passa uma boiada! Como o pessoal gostou, vai mais um texto. Não prometo nada, mas sempre é muito bom saber a opinião de vocês. Boa leitura!

MEMÓRIA

Por André Galvão

 

Eu não queria voltar. Nada mais me interessava ali. Tudo era um sem-fim de recordações dolorosas e inúteis. A maior delas, uma dúvida, uma provocação, uma daquelas feridas mal curadas do coração. Ainda assim, precisava ir, melhor, precisava voltar. Não podia mais negar o meu futuro: agora ele se encontrava com o meu passado.

Aquelas ruas pareciam tão estranhas, tão vazias de substância. Nada naquele lugar me parecia familiar. Talvez tivesse bloqueado em minha mente aquelas coisas, fatos, pessoas, casas, ruas... Seria então uma espécie de proteção, uma armadura contra o tempo. Bobagem! Tem feridas que doem demais para sarar. Nunca saram, na verdade.

Depois de tantos anos, eu estava ali. No meio da praça, tentando cavar em minha alma um pouco de coragem, de vontade de seguir adiante. Jamais me percebera tão covarde, hesitante. Era o medo: medo de encontrá-la, de sentir aquele punhal pungente em meu peito de novo, sangrar as fendas da memória. Esse era, em verdade, o meu maior temor.

Um vento frio de inverno cortava a praça, que permanecia calma e vazia. Nem mesmo os pombos, tão comuns por ali, visitavam os bancos e monumentos. Só eu, de volta, reimerso nas lembranças, encontrava nas esquinas imaginárias breves lapsos de sorrisos, coalhados de dor e frustração.

Não queria admitir, mas aqueles sentimentos confusos também abriam espaço para pequenas doses de esperança. Sim, esperança! Por mais contraditório que pareça, guardava secretamente uma tênue esperança de revê-la, após tantos anos, após tanto sofrimento. Será que ela ainda estava ali? Meu corpo gelava mais com essa pergunta que com o frio que tomava a velha praça. E nada poderia aquecer essa dúvida.

Sentei naquela antiga padaria e pedi um café. Sem leite, forte e bem quente, como mais aprecio. Era uma tentativa patética de esquentar o corpo, ou quem sabe, o coração. O café não veio tão quente nem tão forte, mas foi o suficiente. Por alguns segundos, degustá-lo foi uma abstração reconfortante. Lembrei-me do meu pai, dos meus amigos, da infância longínqua acostumada a sentir o cheiro das chaminés das torrefações. De novo, o passado. E assim foi por vários dias.

Voltei a nossa velha casa, revisitei seus quartos e tremi de angústia ao ver tudo aquilo. O vazio me causa repugnância, uma estranha sensação de que não há onde me apoiar. Mas era necessário passar por todas essas situações. Cumpria assim as formalidades da vida burocrática que levamos, sem trazer à análise as dores comuns do nosso subconsciente.

Durante aqueles dias, a cidade me pareceu extremamente quieta, mais do que parecia ser costume. Isso não chegou a ser um fato estranho, uma vez que se tratava de uma cidadezinha perdida no interior de um vale, onde só o trem penetrava desviando dos meandros das serras que cortavam a região. Estava tão entorpecido pelas lembranças que não podia reparar quase nada ao meu redor.

Enfim, aquela seria a minha última noite na cidade. Já havia cumprido minhas obrigações, esperava apenas pelo trem no dia seguinte, que sairia no início da tarde. Até lá, poderia me recolher ao lúgubre quarto da pousada, e com o auxílio de um candeeiro de luz vacilante, ler algumas linhas de um dos livros que trouxe como companheiros de viagem.

Porém, por um desses desavisos da vida, não segui a tentadora opção de recolhimento literário e resolvi dar um passeio noturno pelas desertas e mal iluminadas ruas do centro. Havia poucas pessoas na praça, talvez atraídas pelo insistente pipoqueiro que desafiava o frio para fazer estourar, no seu carrinho, as pipocas que preenchiam a noite dos transeuntes. Tive a impressão de que todos se intrigaram com a minha presença por ali.

Segui adiante, deixei pra trás os olhares curiosos e subi uma pequena e íngreme ladeira que dava acesso à Catedral. A igreja estava fechada, não era dia de missa, mas havia uma luz acesa ao fundo, seguindo pela lateral do prédio. Lógico que não deveria seguir esse caminho, mas foi o que fiz. A luz que avistei se espalhava pela noite através uma porta entreaberta, que deixava passar também um inebriante cheiro de incenso. Empurrei a porta e entrei num pequeno quarto onde estavam algumas velas acesas. Aparentemente não havia ninguém e, como não havia mais o que fazer lá, decidi ir embora.

Foi quando ouvi uma voz bonita e suave: “Ei, espere!”. Virei-me novamente para o quarto e não vi ninguém. Foi estranho: não tive medo. Pelo contrário, não sei de onde me veio aquela coragem para voltar. Não cheguei a entrar no quarto. Antes disso, eu a vi. Era ela! Vestida de branco, como uma religiosa, a me olhar com surpresa e constrangimento.

Ela estendeu a mão para mim e seus olhos me convidavam a um abraço. Eu hesitei, dei um passo para trás e ela sorriu discretamente. Em instantes, a minha feição mudara, oscilava entre surpresa e indignação e apertava os olhos para ter certeza do que via. Era ela! Depois de tanto, ali estava! Não parecia mais aquela criatura que desdenhava dos meus sentimentos. Era uma pessoa meiga e calma que me olhava com uma ternura indescritível...

- Meus desejos se realizaram, disse ela. Rezei tanto pra te ver de novo, e aqui está você.

A minha resposta foi um silêncio indevassável. A boca cheia de palavras que não se encaixavam. A mente vazia de idéias, de pensamentos. Apenas fitava seus olhos com frieza.

- Desde que você foi embora, me enclausurei nesse quarto. Precisava pagar pelos meus pecados. Um grande amor não pode ser menosprezado. Entendo que você não me aceite novamente. Mas preciso de seu perdão – é a única forma de voltar a viver como uma pessoa comum. Como uma maldição, depois de tudo o que houve, as pessoas me detestam e mesmo as que nem desconfiam do que aconteceu entre nós me tratam mal e não admitem minha presença nem mesmo nas missas. Assim, tive de me recolher aqui por piedade do sacristão. Agora você pode desfazer esse sofrimento.

Eu sorri pra ela. Abracei-a. Depois, a olhei nos olhos em silêncio por alguns segundos, coloquei as minhas mãos sobre seu pescoço e, não sei bem por que, tive vontade de estrangulá-la, tamanha a raiva que se abateu sobre mim. A cólera no meu rosto a assustou e sua expressão de medo atenuou a minha ira. Dei um passo para trás, peguei uma cadeira e quebrei-a no altar onde estavam as velas acesas. Ela chorava, mas isso só aumentava o meu descontrole. Seus cabelos negros despenteados batiam no meu rosto, em meio às inúteis tentativas de me parar. Não adiantou. Destruí tudo o que vi pela frente, inclusive a última centelha de amor que restava em mim. Saí pela porta sem olhar pra trás. Não queria mais ver aquele rosto. A maldição dela foi a minha cura, mas nunca pude me sentir feliz por isso.

No dia seguinte, peguei o trem e nunca mais voltei àquela cidade. Anos depois, soube por um amigo de infância do caso de uma louca que andava vestida de branco, à noite, gritando de dor, pedindo perdão. Ela morreu pouco mais de três anos depois de nos vermos. Mas não sinto remorso ou saudade. Apenas alívio.

 

O São João voltou!

Em outras oportunidades, usei este blog e outros meios para criticar a degradação da cultura junina no interior da Bahia. Hoje, meu objetivo é outro. Além de criticar, devemos também reconhecer os méritos, os acertos, quando eles ocorrem. Esse é o caso do São João de Amargosa em 2008.

Há quanto tempo eu não via um São João tão verdadeiro, tão bem organizado e fiel às tradições! Não, não sou um conservador, mas vejo com angústia o quanto a nossa sociedade vem pagando por não valorizar seu passado, suas tradições. E em 2008, o que eu vi em Amargosa foi uma festa organizada, bem estruturada, num local (Praça do Bosque) que sem dúvidas é um dos melhores da Bahia para eventos do tipo. A homenagem aos bonecos foi perfeita, a decoração de muito bom gosto.

A Vila Junina é um sucesso, a despeito de alguns moradores da cidade que parecem não ter cultura suficiente pra entender o seu real significado. A disposição do Bosque melhorou e muito, agora há mais espaço para dançar e também para sentar nos bares. O respeito à tradição e a logística da festa certamente atrairão mais turistas para 2009, porque a propaganda boca a boca ainda é muito forte no circuito das festas juninas.

Destaque também para a grade de atrações. A prefeitura foi muito feliz na escolha dos artistas que se apresentaram em 2008. É bem verdade que, por necessidade comercial, faz-se necessário contratar algumas pseudo-bandas de forró (nenhuma banda que tem "forró" no nome toca forró de verdade!), mas isso foi o mínimo neste ano. Tivemos shows memoráveis de Waldonys, Santana, Flávio José, Hugo Luna, Megaxote, Estakazero, Cissinho de Assis e até de Bruno & Marrone (que nem são forrozeiros...). Deu gosto ir ao Bosque ver os shows!

A jogada comercial do ano foi colocar a dupla sertaneja (?) Bruno & Marrone para o último dia. Nos últimos dez anos, não me lembro de um último dia tão lotado. Se eles não tocam forró, pelo menos são uma atração nacional, e como tal, atraem uma legião de fãs que movimentam a festa. Levam o nome de Amargosa para todo o país. Isso é uma propaganda inestimável.

Como contraponto, vou usar o mote da fala de Santana em seu show, pedindo aos comerciantes que não explorassem o visitante. Eu entendo que alguns comerciantes da cidade (até os eventuais) só têm os dias da festa junina para arrecadar um dinheirinho extra. Mas, salvo algumas exceções, é bom que se diga, há muita exploração sobre o preço de produtos e serviços durante o São João, e se o turista chega aqui e se sente explorado, ele não volta, não recomenda a cidade aos amigos, familiares, colegas. O turista é um multiplicador, e se ele for bem tratado, além de voltar, traz com ele vários outros e isso significa mais dinheiro circulando no comércio local. Essa não é uma equação tão difícil de entender.

Por outro lado, os turistas, principalmente, também protagonizaram o aspecto mais negativo do São João. Não é de hoje que critico a postura incoerente de alguns turistas que se acham "donos da cidade". Esse tipo de pessoas, que infelizmente aumenta a cada ano (como uma consequência direta da desintegração dos valores morais como um todo na sociedade moderna), acha que tudo pode só por estar em uma cidade pequena. As ridículas cenas de competição de sons de carro tocando os pagodões acéfalos ou os "créus" insanos se espalharam por toda a cidade durante a festa. Uma pena que esses idiotas achem que com isso estão sendo bem vistos ou invejados. Deveriam pendurar uma melancia no pescoço. Vai se chegar ao ponto de ser necessário limitar os decibéis dos sons de carro no São João. Na verdade, eu acho que isso já deveria acontecer, mas é uma opinião minha, com a qual muita gente não concorda, o que é absolutamente normal.

Em resumo, somando aspectos positivos e negativos, o São João 2008 em Amargosa foi excelente. Há sempre os insatisfeitos, que por algum motivo não vão concordar com a minha opinião. Paciência. De qualquer forma, deixo aqui os meus parabéns à Prefeitura Municipal e a todos aqueles que participaram da organização da festa. Parabéns também aos comerciantes, aos funcionários da limpeza, aos artistas e aos que foram se divertir no bosque. Esse êxito é de todos. E que 2009 seja ainda melhor!

 

Ousadia literária

Normalmente, não costumo me arriscar a escrever textos ficcionais em prosa. Mas esse saiu! Se quiser, diga o que achou. Ficarei muito feliz em saber sua opinião, seja ela qual for. Um forte abraço!

EPIFANIA

Por André Galvão

 

Decidiu não voltar mais. Estava cansado de tudo aquilo. Tantas idas e vindas e agora... ah, deixa pra lá. Melhor tentar outro caminho, buscar razão em outras idéias, outros pensamentos.

Os sentimentos são mesmo assim. Nunca têm razão em si mesmos, obedecem a uma lógica estreita e imprevisível, que pra muitos não é nem mesmo lógica. A paz é ceifada em instantes por um arrebatamento tal que descontrola toda a vida por instantes, dias, meses...

Ele sabia que não era possível se esconder do que acontecera. Sabia também que esse sentimento não era recíproco. Aquilo não haveria sido tão importante pra ela como fora pra ele. Difícil era aceitar isso, engolir essa verdade dura e absoluta. O descaso e a ironia eram provas inequívocas de que para ela, tudo não havia passado de uma aventura, boba e fútil, talvez.

Era melhor seguir, fazer de conta que nada acontecera, esconder dentro de si as trombetas que anunciavam a vontade de gritar, de questionar, de querer entender o porquê da situação. Mas nada mudaria, sua consciência disso oscilava em meio à perdida esperança de que ela mudasse tudo com um sorriso, um aceno, um olhar.

E assim passaram os dias, envoltos em velada expectativa e uma angústia incontrolável. Como previa, os encontros foram inevitáveis, mas ao contrário do que mais intimamente esperava, foram frios e formais. Sempre imaginava ouvir dela uma palavra de carinho, ou mesmo perceber nela um olhar desavisado, intuitivo, deixando no ar possibilidades de esperança. Mas não aconteceu assim.

O tempo, que se encarrega de varrer o lixo da sala dos nossos pensamentos, se mostrava de forma cada vez mais definitiva como único aliado em sua estrada. Seria o tempo o responsável por expurgar do seu peito aquele grito entalado, aquela dor cortante, aquele sentimento de perda sem explicação.

Mas como contar com o tempo diante da pressa comum da juventude? Às vezes é tão difícil acreditar que o futuro chega mesmo! Tudo é tão instantâneo que chega a ser sufocante, embriagado da necessidade de acontecer. Com o amor não poderia ser diferente.

Durante semanas, ele insistia em passar ao lado do prédio onde ela trabalhava. Lá não entrava, é claro, não podia se expor tanto assim. Mas dava insistentes voltas no quarteirão, na expectativa de se esbarrar com ela na entrada do prédio. Escolhia momentos estratégicos, como horário de almoço ou de saída, mas não dava sorte: quando a via, ela acenava pra ele sem muito ânimo, mais como uma exigência social que como uma vontade de falar com ele. E sempre cercada de pessoas, amigos, amigas, colegas, possíveis pretendentes... era tudo imprevisível e sombrio.

O que restava era o trabalho, o estudo, apesar de estarem amplamente comprometidos pelo desatino das últimas semanas. Pra piorar, não tinha ninguém por perto com quem pudesse se abrir, chorar, gritar, botar pra fora aquele sofrimento incontido. As coisas caminhavam firmemente rumo ao fim, a um desfecho sem graça e sem solução.

Chovia fino naquela manhã. O sol teimava em se esquivar ante as nuvens, mas não tinha forças pra isso. Depois de tanto tempo alimentando e simultaneamente tentando matar um amor inexplicável dentro de si, ele se percebe em letargia, transitando entre a esperança e a desilusão em segundos, e realizava suas tarefas com um automatismo incomum a sua rotina. Eis que ela chega, entra pela porta, como se sol finalmente tivesse conseguido romper as nuvens que o impediam de inundar com seus raios a existência.

Como uma miragem, ele vê aquele olhar, como naquela noite distante, um olhar que parecia querer viajar na profundidade dos seus olhos, desvendar seus pensamentos e segredos. O coração disparou. Parou o que estava fazendo e pôs-se a acompanhar aquele olhar, como se cada segundo correspondesse a um lapso atemporal. Naqueles segundos que se arrastavam enquanto ela se aproximava, milhares de pensamentos invadiam seu cérebro confuso, e até mesmo as idéias pareciam gaguejar.

Engoliu em seco. Ela chegou, abriu um sorriso tímido, parou diante dele. O tempo continuava parado no universo, o mundo inteiro perdera a conexão com a realidade. Lembrou-se de uma música, quis cantá-la mentalmente, mas seria impossível ordenar qualquer coisa naquele momento.

Tentou falar, não conseguiu. Restava esperar que ela conseguisse. Ela estava abatida, parecia triste, e aquilo o angustiara ainda mais. Ele se levantou, se aproximou dela e ela correspondeu com um abraço terno, forte, sofrido.

Sentiu no seu rosto as lágrimas que escorriam dos olhos dela, e eram fortes, constantes. Tentou desvencilhar-se do abraço e olhá-la nos olhos, mas ela não permitiu. Continuaram ali, abraçados, para estranheza e curiosidade dos que por ali passavam. Depois dos minutos mais longos da eternidade, ela juntou forças, e com a voz embargada, com gosto de lágrima na boca, sussurrou no ouvido dele: “Eu também te amo!”.

Agora ele também chorava, mas não sabia se de tristeza por ela, ou de alegria por ele, apenas não conseguia definir o que sentia. Até que ela desfez o abraço, olhou profundamente para ele, deu um sorriso sem graça, enxugou as lágrimas e saiu pela porta, com uma pressa discreta de quem não quer chamar ainda mais a atenção das pessoas.

Ela pediu demissão do trabalho, mudou-se de cidade e os amigos contavam que não sabiam a razão e que também não sabiam para onde tinha ido. Aquele olhar foi a última miragem que ele teve na vida. Nunca esqueceria aquela voz, aquele cheiro, aquelas mãos frias e trêmulas.

Restava saborear a tristeza como quem se surpreende com a chegada da alegria. Ele era correspondido em seu amor, e essa certeza o conduziria por toda sua vida, mesmo sozinho.

 

 

Inquietude existencial ou a época do caos

Vivemos uma época no mínimo engraçada. Um tempo em que as crianças de 9, 10 anos exigem dos pais um celular, e o pior: alguns pais realmente acham isso essencial! Uma época em que as pessoas (acham que) conhecem as outras pelo perfil do Orkut, uma época em que nesse mesmo Orkut mantemos como “amigos” pessoas que nunca vimos ou que conhecemos apenas de ouvir falar.

Os valores morais, culturais viraram farofa... A música virou um reduto de idiotas acéfalos que produzem ritmos repetidos associados a pseudo-letras cheias de rimas não menos idiotas. E há muitos, muitos mesmo, que os cultuam. A tradição virou uma coisa chata e ultrapassada. Até a educação vive influenciada por idéias “revolucionárias” importadas que têm produzido safras de alunos alienados, insubordinados e despreparados para a vida e para o mercado de trabalho.

A memória tem sido trocada por drops de atualidades que se tornam automaticamente obsoletas ao sabor da notória velocidade da informação no mundo virtual. As bibliotecas estão sendo trocadas pelas lan houses, e livros estão se tornando coisas pesadas e chatas, que são compradas apenas quando determinado autor está na moda. E geralmente os que têm andado na moda são os que trazem velhas fórmulas prontas ou nos empurram ideologias falidas convertidas em livros de auto-ajuda.

A futilidade dita relacionamentos, a mídia incita uma revolução sexual descontrolada e equivocada, e a lógica de consumo se estende também à quantidade de pessoas que se “pega” ou... deixa pra lá!

É óbvio que não cabe aqui generalizar sobre o que foi dito acima, por isso é bom lembrar que essa não é uma retórica extensa a todos, mas a um setor da sociedade que age seguindo essas diretrizes. Se lhe coube carapuça, paciência. Diz o povo em sua sabedoria (que ainda persiste, ufa!) que a verdade dói. Concordo plenamente. Dói pra todos nós.

Concessão Poética

Não costumo expor os poemas que faço aqui neste blog, até mesmo por uma questão de autocrítica. Mas diante da curiosidade gerada pelo trecho de poema que usei no texto "Pra sempre despedidas", resolvi publicar o poema em questão na íntegra. Espero que gostem. Muito obrigado por ter vocês aqui neste blog.

A SAUDADE QUE NUNCA PASSA

 

 

 

Cada despedida

é um lapso

entre o bem

e o mal

 

A expressão no rosto de quem fica

parece cúmplice

dos olhos

de quem vai embora

 

No coração, a incerteza

e a vontade de um dia voltar,

de ver tudo de novo,

de sentir a mesma alegria

 

Tudo fica em suspenso,

nada faz sentido,

o coração aperta

e as lágrimas pedem licença

 

Despedir-se é pensar no pior,

quando o melhor seria ficar,

e não enfrentar a tristeza de ir

e o medo de não voltar.

 

 

ANDRÉ LUÍS M. GALVÃO

SSA, 10.03.2000

 

Ninguém mais quer ser como é

“Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são”.

Cecília Meireles

 

Aparência. Essência. Nessa ordem. Pelo menos é o que dita a sociedade de consumo na qual vivemos. Consumo de tudo: produtos, serviços, pensamentos, pessoas... As pessoas consomem até a própria imagem, num canibalismo sádico e surreal.

Quantas (ou quantos) você “pegou” na última festa? De quais você lembra o nome? Quantas peças de roupa inúteis você tem em seu guarda-roupa? E sapatos? Certamente essas perguntas não têm resposta, pelo menos para muitas pessoas. O importante é consumir, não necessariamente para si, mas em muitas vezes para outros, para se manter visto, percebido. Não importa que para isso o sujeito se venda, se destitua de suas características, se troque por uma modazinha sem-vergonha de fim de semana. O que vale é aparecer.

As pessoas deixaram de se vestir conforme seu próprio gosto. Estão sempre imaginando o que será dito pelos outros, como elas serão vistas pelos demais. Essa falta de afirmação, de identidade é a peça-chave da engrenagem capitalista: quanto mais inseguro, mais consome para tentar alcançar um patamar de aceitação alheia.

Até o gosto por música e livros é afetado por tudo isso. As músicas duram o suficiente para fazer sucesso por pouco mais de duas semanas. O cantor famoso deste mês vira artista decadente no programa sadomasoquista de domingo à tarde no mês seguinte. Tudo é muito rápido, não dá tempo de pensar, assim como nos telejornais, que apresentam os falsos sorrisos dos apresentadores como anestesia entre um absurdo e outro da política nacional. A memória coletiva é uma piada de mau gosto. A cultura popular está virando um celeiro de intergalácticas mediocridades.

Assim, o cidadão é conduzido ao desmembramento de si mesmo. Não interessa ser como realmente é. Interessa ser como os outros querem que seja. Medíocre, fugaz, alienado, fútil, desumano... não importa. Se é preciso ser assim para ser aceito, paga-se o preço com absoluto desprendimento e sem qualquer remorso.

E não adianta colocar a culpa de tudo isso exclusivamente nos jovens. Tem muita gente “experiente” se aproveitando de tudo isso com um sarcasmo fenomenal. Então, o que resta? Atribuir culpas e se eximir delas? Não mesmo. É preciso ter coragem de ser diferente, ou melhor, ter coragem (ora vejam!) de ser autêntico, o verdadeiro espelho de si mesmo. Mas parece que isso hoje em dia “dói” mais do que ler um bom livro!

Pra sempre despedidas

“Despedir-se é pensar no pior,

quando o melhor seria ficar,

e não enfrentar a tristeza de ir

e o medo de não voltar.”

(André Galvão, A Saudade que nunca passa)

 

 

Esta é a sina do professor: conviver com as despedidas. Nada impede isso, nenhum aluno fica pra sempre, e pro bem dele é bom que não fique mesmo. Essa lógica da vida de ter de conviver com o adeus daqueles a quem nos apegamos é cruel, inexorável e inevitável. A cada ano, um novo ciclo se inicia: você conhece as pessoas, aprende a conviver com elas, conhece suas virtudes e defeitos (tudo isso é recíproco) e, ao fim de algum tempo (que passa sempre voando!) tem de se acostumar a dar adeus. Sim, adeus, não se trata de um até logo, daquela maneira que você conviveu com eles inicialmente, eles nunca voltarão, não serão mais “os alunos”, curiosos, angustiados, alegres, espontâneos... serão, com muita sorte, amigos, conhecidos ou mesmo “ex-alunos”.

É tão angustiante essa situação, não podemos fazer nada pra impedir a sua despedida: não iremos reprová-los ou criar um novo ano escolar só pra que continuem a conviver conosco. E o mais angustiante é encontrar pela rua alguém que conviveu com você durante algum tempo, dividindo uma parte do dia, passar e dizer um “oi, professor” e se perder no vazio... Tudo bem, alguns podem até dizer: “seria pior se ele nem falasse com você!”. Concordo, é verdade. Mas é tão estranho...

Quando eu lembro que na minha adolescência, por cursar o ensino Médio em colégios de Salvador, eu não tinha quase contato nenhum com os professores, imagino que pra eles fosse um pouco menos difícil o momento da despedida. Talvez alguns nem sentissem nada, mas acredito sempre haver em seus corações uma dose de angústia, por menor que fosse.

Talvez o erro seja cultivar tanto apego a essas criaturas tão efêmeras e ao mesmo tempo tão eternas em nossas vidas. Não, não acredito nisso, pra falar a verdade. Se não houver entrega, se não houver essa dedicação, essa aproximação, o sentido de “ensinar”, de mostrar os caminhos perde o seu sentido. Por mais que seja cruel, deve ser assim.

Enfim, fica uma terna saudade. Há sempre aqueles a quem nos apegamos mais, por vários tipos de afinidades. E há até aqueles a quem não nos apegamos nem um pouquinho. Isso é normal. Mas todos, de uma forma ou de outra, deixam saudade. Seja por um sorriso, uma lição, uma brincadeira, uma lágrima. Com vocês aprendi e aprendo a cada dia as maiores lições, os principais ensinamentos do ser professor. Tento repetir os bons professores que tive, e não ser como os maus. E nem sempre consigo...

Vivemos juntos alguns meses, ou anos, mas é o suficiente pra marcarmos as nossas vidas com a nossa presença. Isso é que é o mais importante. E deve ser sempre assim.

E não devemos nunca esquecer: dependemos uns dos outros pra que o ofício da Educação continue nos trazendo os melhores dias das nossas vidas.

Obrigado, meus alunos, sempre!

 

P.S.: Dedico este texto aos meus alunos da Escola Criação, SEI Pré-Vestibular, Curso Diretriz, Sucesso Pré-Vestibular, Campus de Educação Integrada, Colégio Social, Colégio Santo Agostinho e a todos os alunos com quem já tive o prazer de conviver em tantas outras instituições. Vocês são a razão do meu trabalho.

Ativando a memória

Para que não esqueçamos as grandes catástrofes e para que elas nos sirvam sempre de lição, publico aqui um texto que fiz em 2005 a respeito da passagem do furacão katrina em Nova Orleans, EUA.

 

Os Egoístas

 

A passagem do furacão Katrina em Nova Orleans, nos Estados Unidos, revelou ao mundo dois importantes cenários: o primeiro, catastrófico, corresponde à destruição causada pela fúria da natureza, resultando em danos materiais, desabrigados e mortos; o segundo cenário, em sentido mais amplo, pode ser considerado ainda mais catastrófico que o primeiro. Isso porque essa tragédia mostrou ao mundo a face perversa da poderosa nação estadunidense.

Quantos brancos você conseguiu localizar entre os desabrigados que, desesperados, aguardavam a ajuda do governo? Pior ainda se percebermos que aquela enorme massa de pessoas passando fome e sede era majoritariamente formada por pobres, em sua maioria negros, que mendigavam o apoio governamental em meio à perplexidade da população mundial que a tudo assistia pelas telas de TV.

Estranho. Um país tão poderoso, tão rico, tão “perfeito”, como querem nos convencer os políticos norte-americanos e as telenovelas da Globo, não seria capaz de prestar uma ajuda mais rápida e eficiente aos seus filhos em meio à catástrofe? O que será que estava esperando o senhor George W. Bush para autorizar o resgate dos desabrigados e feridos que esperavam auxílio dormindo no meio da rua, a céu aberto? Todo o mundo viu que homens, mulheres, crianças, idosos, passaram dias e noites esperando a salvação, enquanto a ajuda esbarrava na burocracia e falta de cuidado político do senhor Bush Filho. Engraçado, essa inoperância não era coisa de país subdesenvolvido, como o Brasil?

Para muitos, foi uma desagradável surpresa a (falta de) atitude do governo federal dos Estados Unidos frente à realidade exposta depois da passagem do furacão na cidade de Nova Orleans. Por que tanta demora? Por que um país que se apressa em declarar guerras mirabolantes contra inimigos inimagináveis é tão vagaroso em prestar socorro aos seus cidadãos em pleno território nacional? Talvez porque se tratassem de pobres, negros e hispânicos. Alguns poderiam, radicalmente, acusar o governo de promover, indiretamente, uma tentativa de “limpeza étnica” naquela região. Seria exagero. Mas não seria exagero dizer que a vergonha das imagens transmitidas para o mundo traduz a realidade de um país imperialista, “preocupado” com as causas do universo, mas que não consegue resolver suas próprias questões internas.

A popularidade de Bush nunca foi tão baixa. Mas isso não adianta. O que assusta mesmo é como um povo que tem acesso à educação, que tem escolas de qualidade, boas condições de vida escolhe para governar a sua nação uma criatura como George W. Bush. Será uma vontade inconsciente de beber o sangue de inocentes? Ou a velha teoria de que o mundo conspira contra os Estados Unidos da América? No Brasil, a escolha de maus políticos se deve à ignorância popular, mas e lá? Hipóteses à parte, o fato é que Bush está lá, comandando a mais poderosa máquina de guerra de que se tem notícia, disposto a invadir tudo e todos para o bem dos interesses yankees.

E de que adianta tanto poder, se o presidente não é capaz de organizar, de forma rápida e eficiente, um salvamento para os desabrigados da tragédia de Nova Orleans? Como se explica tanta falta de sensibilidade, tanto desprezo pela vida humana? Só porque são na maioria pobres? E eles também não pagam impostos? Não são pessoas? Onde está aquele presidente tão “corajoso”, que se emocionou e se empenhou tanto ao defender a honra das vítimas do WTC em 2001? Será que elas mereciam mais deferência e presteza porque se tratavam de altos executivos ou membros da classe média alta estadunidense? E por que tamanho revanchismo e insensibilidade ao recusar as ofertas de ajuda de Cuba e Venezuela aos desabrigados pelo furacão? O “Império” não pode ser ajudado pelas “pobres ditaduras latino-americanas”?

Um país que diz prezar tanto a democracia não pode manter no comando um déspota como George W. Bush e seus estúpidos asseclas. Não podemos cometer a ignorância histórica de compará-lo a Hitler, Stalin ou Mussolini, mas sem dúvida é possível afirmar que a sua permanência à frente dos Estados Unidos da América é a prova de que aquele país está nas mãos dos egoístas, da parte da população que prefere eleger um louco Nero do século XXI para manter a sua “soberania”, declarando guerra ao mundo, a tentar fazer de todo esse poderio um instrumento para promover a paz mundial e o desenvolvimento das nações menos favorecidas. Os Estados Unidos são comandados pelos egoístas, aqueles que colocaram Bush no poder e que, como ele, continuam achando que a sua “poderosa fortaleza onipotente” é o único lugar do planeta que tem o direito de decidir os destinos da humanidade – desde que negros, pobres e hispânicos não participem desse processo. É o que ficou claro para quem quiser ver depois da passagem do furacão Katrina em Nova Orleans.

 

Escrito em 03.09.2005

 

 

Conhecimento nunca é demais

Se às vezes navegar na internet é como estar num barco sem rumo numa calmaria, é bom termos direções, rumos a seguir. Os blogs são uma inovação que vem dando muitos frutos. Agradeço a sua paciência por me dar o prazer de visitar (além de ler e comentar) o meu blog, e aproveito para sugerir outros blogs que certamente proporcionarão a você excelentes momentos de navegação. São eles:

Lar, doce, lar... (http://higorbastos.blogspot.com/) - O excelente blog de um dos mais perscrutadores alunos que já tive o prazer de ter. Lá você terá um mix de textos sobre assuntos interessantes e atuais. Só reivindico a presença de mais textos de sua autoria. Vale muito a pena dar uma chegadinha lá.

Ponto e vírgula (http://ponto-e-virgula.zip.net/index.html) - Quem tem o dom da retórica nunca perde a majestade. Eis aqui o blog do brilhante colega e amigo professor Valter Cezar. Inspire-se! Lá você verá textos de intenso potencial criativo. Imperdível.

Devaneando (http://devaneiosmil.blogspot.com/) - Tem alunos que exibem seu talento desde as primeiras linhas que escrevem. Esse é o caso de Nayara Arêdes, uma promissora escritora que faz da sua potência verbal um alento literário em tempos de desprezo da juventude e da população em geral pela leitura e pelo conhecimento.

Revertério (http://reverterio.com/) - Já que o jornalismo brasileiro anda ligado demais aos formatos da mídia sensacionalista internacional, nada melhor do que ler textos de qualidade produzidos por estudantes de Jornalismo da UESB, que "mostram a cara" desde cedo aqui na net. Destaque para a também promissora Sâmia Louise, uma aluna que sempre produziu textos inspiradores e muito dotados de conhecimento crítico da realidade.

Cavaleiro de Fogo (http://www.jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/) - Gosta de boa poesia? Não perca então o site do poeta e amigo José Inácio Vieira de Melo, um autor que dispensa maiores apresentações. Lá você encontra além de poemas do autor, resenhas críticas sobre sua rica e extensa obra e comentários sobre autores baianos da nova geração.

O Prazzer dos Contos (http://oprazerdoscontos.zip.net/index.html) - Contos são reralmente maravilhosos. E os contos de José Simão não ficam por menos. Escritos com criatividade e muita técnica, seus contos lembram com muita propriedade as histórias de John Grisham, Cona Doyle, entre outros contistas da Literatura Universal. Não perca a oportunidade de conhecer suas histórias.

Blog de vidalmsouza (http://marcelo-biovidal.zip.net/) - Só um biólogo e professor completamente apaixonado pela Biologia é capaz de nos brindar com notícias, textos e fatos tão interessantes sobre o "estudo da vida". Destaque para o amor desse grande cara pelos animais e sua intensa curiosidade por cultura em geral.

Desfrutem os caminhos e tenham ótimas viagens!

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