Ousadia Literária 3

DESCAMINHO

 Por André Galvão

 

Já eram mais de quatro horas da tarde. Ele sabia que ela não viria mais. Porém, ainda assim, insistia em ficar ali, inquieto, imaginando ser o centro das atenções dos olhares ao redor. Parece ser sempre assim quando se espera alguém que não vai chegar.

Não era a primeira vez. Tantas foram as ocasiões em que ela marcara um encontro e não aparecera. E ele sempre esperava. Tentava acreditar naqueles olhos misteriosos. Ela nunca foi a nenhum dos encontros. No dia seguinte, quando a via, ela inaugurava um sorriso inocente, de quem não sabia ao certo o que aconteceu. Era espontâneo demais, e isso o magoava ainda mais. E para desarmá-lo, ela sussurrava ao seu ouvido que estava com saudade, e um misto de indignação e atordoamento o tomava de pronto.

Aquela história nasceu e morreu pela metade. Ela disse várias vezes que o amava, em meio aos “furos” aos encontros, em meio a nenhuma certeza. Ele se alimentava dessa dúvida, e se envolvia com a velocidade de quem se empenha em pular do último andar do prédio, irrevogavelmente.

Eis que um dia, ele decidiu esquecer tudo aquilo. Ensaiou em casa o que dizer. O espelho não o suportava mais. Mas estava decidido: era o momento de tudo isso acabar. Mas não devemos subestimar o poder dos nossos medos, ainda mais quando eles se referem aos gritos que ecoam de nosso coração.

Por uma dessas inexplicáveis arrelias do destino, foi ela a primeira pessoa que viu na porta do colégio. Estava linda, e aquele sorriso iluminado foi a única luz depois de horas de tanta escuridão. Agora seria diferente, não seria sorriso ou sussurro que mudaria a sua intenção de falar tudo o que sentia. Aproximou-se dela, rosto fechado, olhar seco, pisada firme. “A gente precisa conversar agora”, num tom grave e ao mesmo tempo trêmulo. Ela, pra variar, continuou sorrindo e concordou com leves movimentos faciais.

- Pois então fale!

Passados alguns segundos, não conseguiu entoar nenhuma palavra. Aqueles olhos eram uma covardia. Como rejeitar aquele jeito meigo e até mesmo infantil, cheio de ingenuidade e sutileza? Ele não conseguiria.

- Desistiu de falar?

Ela continuava esperando a palestra como quem espera o desfile do circo passar. Sua indiferença pelo que ele tinha por dizer só não era maior que sua impaciência em saber por que ele não dizia nada. Ela não se importava com o que ele dissesse, mas esperava para negar tudo, e mostrar a ele que estava errado. Não o perdoaria. Ele iria se arrepender de acusá-la. Já havia montado toda a sua estratégia, não importava o que revelasse.

Ele continuava quieto. Estranhamente, não parecia se esforçar mais em falar alguma coisa. Apenas a olhava como se estivesse contemplando o mar. Deslumbrado, absorto, envolvido por aqueles olhos cheios de vida, desarticulado pelo medo e pela timidez que carregava em si. Não haveria de dizer nada mesmo.

-Não vai falar? Então vou embora!

Pela primeira vez enxergou naqueles olhos um tom de despeito. Achou estranho o que vira. Ainda não se apercebera de verdade do que acontecia. Segurou-a pelo braço, olhou fixamente nos olhos, como quem procurava beber uma pequena dose de verdade. Mas estava tudo seco naquelas plagas.

Ela se soltou, e finalmente aquele sorriso inquietante se desfez. Agora, olhava-o com raiva, não admitia ser enfrentada. O silêncio a ferira mais que uma torrente de palavras. Percebeu que ele mudou, que o seu não falar era um assombro, mas era também uma fortaleza. Parece que ele se alimentou do que não disse, e agora tinha forças pra quebrar o seu encanto.

Ele não falou nada.

Em meio ao rosto crispado de raiva, ele deixou escapar duas ou três lágrimas, que puseram em sua boca o gosto salgado do fim. Não podia amar alguém assim, mas amava! Não havia linha que costurasse aquele rasgo que sentia no peito. A única coisa a fazer era ir embora, mas um tanto de raiva e angústia ardia em seus olhos marejados. Ficaria calado? Isso era covardia demais!

Enquanto decidia atordoado o que fazer, ela viu que não teria com o que brigar, não precisava armar revide, não haveria mesmo ataque. Era difícil esperar algo diferente de quem sempre esteve “na mão”, como um pássaro que desaprende a viver sozinho na mata.

- Covarde! Eu vou-me embora é agora mesmo!

Aquilo estranhamente o aliviou. Vê-la se dissolvendo no frio da manhã era agora um alento. Restava ir embora também, apagá-la de uma vez do coração, pois não merecia tanto esforço. Era assim, até que ela, do meio do caminho, voltou-se para ele:

- E você ainda acreditou que eu te amava? Nem por um segundo! Como amaria uma pessoa que nem tem coragem de dizer o que sente? Covarde, é isso que você é!

Agora, todos ao redor haviam se apercebido do que acontecia. Olhares e risadas cortantes se anunciavam no horizonte. Ele não podia mais esperar, era hora de fazer alguma coisa. E fez.

Tomado por uma raiva lancinante, correu em sua direção, puxou-a nos braços e deu-lhe um longo e forçado beijo, enquanto ela se debatia em seus braços. Em meio aos gritos e à surpresa de todos que viam a cena, seu êxtase se cristalizava como num sonho.

Quando finalmente a soltou, um susto. Viu, naquele rosto marcado pelo sorriso, as lágrimas vertendo-se em profusão. Ele a vencera pelo sentimento, sua vingança era premiá-la com seu primeiro beijo, motivado pelo ódio, justificado pelo amor.

Ele, então, se pôs a sorrir, virou as costas e saiu em paz daquele lugar.
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