Réquiem para Nilson Lomanto
Por André Galvão
Conheci “Dr. Nilson” pelas histórias que meu pai e minha mãe contavam quando Nilson Lomanto era diretor do Colégio Pedro Calmon. Também ouvi muitas vezes deles dois que o colégio nunca mais fora o mesmo depois de sua saída da direção.
Aliás, dele sempre ouvi as melhores histórias. As mais incríveis, é bem verdade, seriam contadas a mim por seu neto Vinícius, depois que nos tornamos amigos. Só não conhecia seu lado poeta, ou não, como ele mesmo diz em seu livro “Caminhos”, com o prefácio “Se eu fosse poeta”. Era sim, Dr. Nilson, e isso já se pode perceber antes mesmo de ler seus poemas, ao vislumbrar a frase: “felicidade não é o que os outros pensam e sim o que você sente”. E essa frase é o quê, senão pura poesia?
Quem me presenteou com o livro foi seu outro neto, Caio, meu aluno, que antes havia me mostrado alguns belos poemas de seu avô. Como gosto de (boa) poesia, não pude deixar de “degustar” o livro, identificando imediatamente o aspecto que mais se destaca em seus poemas: o cunho memorialista, que nesse caso, nos ajuda a viajar por suas lembranças e visões de uma Amargosa tão mágica quanto saudosa e que os desaventurados da minha geração e das vindouras nunca terão o prazer de vivenciar.
No aspecto formal, é constante a presença de sonetos, o que denota uma preocupação flagrante com a arrumação das idéias e sentimentos. No conteúdo, além do memorialismo, doses de humor e ironia, com prováveis influências de grandes poetas da nossa literatura. No quesito humor, destaque para o poema “As línguas”, que surpreende o leitor com seu desfecho, pois começa a falar dos idiomas, mas passando pela saborosa língua de boi “cheia, frita ou de ensopado”, conclui que “Língua gostosa? Sim, é da mulher, / Que se morde e chupa, até o pé”.
O memorialismo se destaca na obra de Nilson Lomanto a começar pelo poema “Velhas lembranças”, no qual “As recordações d’outrora, / Já não são mais realidade, / Lembrança que traz, minora / Da infância, a saudade”. Esse tom permanece em “Raul, o meu pai”, uma clara homenagem ao pai, eternizando seu nobre legado: “Deixou de herança, honestidade. / Para as desditas, sempre coragem! / Sem medo! A morte era fatalidade, / A existência? Era uma passagem...”. E essa passagem é revisitada no poema de sugestivo título: “Reminiscência”, indicando o que é para todos inevitável: “Mas, a morte é destino: meu e seu...”.
A coletânea de poemas é fechada em grande estilo: o poema “Amargosa” traz em sua composição uma bela homenagem, na verdade uma declaração de amor a esta cidade, e ao mesmo tempo um libelo de esperança por seu futuro, ao tempo em que retoma momentos de sua história: “Já, mais de um século é passado, / Quando ‘Bandeiras’ chegaram na região, / Índio espantado, onças acuando, / Subindo as margens do Ribeirão”. O nome da cidade, que indica algo amargo, é logo explicado: “O nome parece uma sobrecarga, / Mas é, segundo o dito popular, / Legado das pombas de carne amarga, / Caçada às sombras do Jequitibá”. A referência ao nome da cidade é o mote que encerra o poema e o livro com um traço marcante de humor: “Se bem atentarmos, é confirmado, / Que o nome nunca deve dar azar, / Quando, se por dois verbos é formado, / Verbos primorosos: AMAR e GOZAR”.
A poesia de Nilson Lomanto, além de bela e rica em suas referências e preocupações formais, é um patrimônio de Amargosa, pois revela um traço importante de sua identidade, remonta a passagens importantes de sua história. Essa poesia é um arcabouço de imagens que, pertencentes a um homem que carregava sua cidade e sua família no coração, e a elas conhecia como poucos, só pode ser um referencial indispensável para se vislumbrar a cultura amargosense.
Como diz Linda Hutcheon, “só existem verdades no plural”, e as verdades que estão cristalizadas na obra poética de Nilson Lomanto são marcas inexoráveis da sua privilegiada visão sobre sua família, sobre sua cidade, e principalmente sobre a existência, essa “passagem” imprevisível e curta, mas carregada de belezas.
Noslim, como se denominava em seus poemas, passou. Viveu essa passagem como poucos, deixando legados que certamente vão muito além do vigor de seus poemas. Lembro-me de que meu pai também nos deixou pouco tempo depois dele. E, se como dizia Guimarães Rosa, “a gente não morre, fica encantado”, eles, amigos que eram, estão encantados, em algum lugar, discutindo literatura e rezando por uma Amargosa cada vez mais linda, como certamente ela era quando ainda estavam por aqui.
|
||
|
|
||
|
||